terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Sem surpresas

Já faz um bom tempo que o Oscar não reserva uma surpresa, ainda mais entre os indicados. Com dez filmes concorrendo, aí é que fica ainda mais difícil acontecer algo diferente do que era previsto. Na maioria das listas feitas por especialistas antes do anúncio das indicações, a única diferença com relação à lista final era a presença de Atração Perigosa no lugar ou de 127 Horas ou de Inverno da Alma. Acabou que o filme de Ben Affleck não emplacou e tudo foi como o esperado.

Talvez a única grande novidade seja a ausência de Christopher Nolan entre os indicados a Melhor Diretor. Seu nome era dado como certo na lista e foi substituído pelo dos irmãos Coen. Mostra de ele parece não ter muita simpatia de seus colegas, sabe-se lá porquê. Na categoria, David Fincher é o franco favorito e só perde o prêmio se acontecer alguma catástrofe. Diferente da disputa entre os filmes, que parece ter ficado mais acirrada depois que O Discurso do Rei venceu a premiação dada pelo sindicato dos produtores. Mas A Rede Social ainda é favorito.

Entre os atores, as dúvidas eram somente em relação a um ou outro indicado. John Hawkes, de Inverno da Alma, entrou como Ator Coadjuvante e a ótima Jacki Weaver, de Reino Animal, ficou com a vaga que muitos davam como certa para Mila Kunis, de Cisne Negro, em Atriz Coadjuvante. Já Javier Bardem venceu a disputa com Robert Duvall pela última vaga de Melhor Ator. Nenhum deles deve vencer o prêmio, então a indicação já é uma vitória. Domingo tem o SAG Awards e deve ficar mais claro quais devem ser os premiados no dia 27 de fevereiro.

Vale registrar também que o Brasil será representado no Oscar pelo documentário Lixo Extraordinário, co-dirigido por João Jardim. É uma besteira essa obsessão que nós brasileiros temos em vencer a premiação, mas pode ser que esse ano a estatueta finalmente venha.

Atualização - 17h58: Como bem lembrou Renato Silveira, Lixo Extraordinário não deve ser considerado como representante brasileiro, já que foram indicados oficialmente apenas os produtores e diretores britânicos. Uma pena.

E sobre quem pode ser o ganhador, vale dar uma olhada no que escreveu Chico Fireman, aqui.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Além da vida


A sequência inicial de Além da vida, que mostra um tsunami destruindo uma cidade tailandesa, abre espetacularmente o novo filme de Clint Eastwood. Infelizmente, toda a tensão e a emoção dessa sequência some conforme o longa vai sendo desenvolvido. Eastwood, que sempre foi um diretor clássico, discreto e bastante eficiente ao contar uma história, aqui parece estar cansado e preguiçoso.

Além da vida, como diz o título, busca analisar a relação que as pessoas têm com a morte. Para isso, acompanha três histórias paralelas sobre o tema. A primeira, sobre uma jornalista francesa (Céline de France) que passa por uma experiência de quase morte durante a tragédia do início; a segunda, sobre um menino inglês (Frankie McLaren) que perde o irmão gêmeo em um acidente; e, por fim, a história de um médium (Matt Damon) que desiste de fazer atendimentos e tenta viver uma vida normal apesar de seu "dom". O filme segue um estilo linear de montagem, limitando-se a entrecruzar as narrativas sempre na mesma ordem, tornando o filme bem enfadonho e previsível.


É exatamente essa fragmentação que mais prejudica o longa. Quando estamos nos familiarizando com os personagens, somos de repente jogados para outro lado do mundo para acompanhar as outras narrativas. Há uma demora excessiva do roteirista Peter Morgan em entrelaçar as três histórias e, quando isso acontece, é feita de uma maneira bastante artifical. O filme também sofre pelo fato de determinadas narrativas serem mais interessantes que outras, sendo a história do médium mais fraca que as demais.

No fim, o Eastwood acaba não chegando a nenhuma conclusão. Ao mesmo tempo em que ataca os charlatões que, usando o nome de deus ou forjando "dons" que não possuem, enganam pessoas em momentos de fragilidade, ele também defende aqueles que acreditam em algo "além" e não são levados à sério. E não será um filme como este que vai mudar alguma coisa.

Hereafter (2010). Dirigido por Clint Eastwood. Com Matt Damon, Céline de France, Franckie McLaren, George McLaren, Bryce Dallas Howard, Thierry Neuvic, Lyndsey Marshal e Jay Mohr.

sábado, 22 de janeiro de 2011

O Turista


O Turista é um desastre no formato de um filme. Um longa policial sem nenhum tipo de tensão; uma comédia sem nada do que rir; um romance sem nenhuma inspiração. Seu relativo sucesso comprova só que um par de rostos conhecidos é capaz de levar milhares de pessoas para uma sala de cinema. O que surpreende é que o filme é dirigido por Florian Henckel von Donnersmarck, que antes dessa tragédia havia dirigido o sensacional A Vida dos Outros.

O roteiro imbecil do próprio von Donnersmarck, junto com Christopher McQuarrie e Julian Fellowes, revela de pronto toda premissa sem nenhum mistério, trazendo-a mastigadinha para que o público – coitado! – não fique confuso. Elise Ward (Angelina Jolie), amante do golpista Alexander Pearce, está sendo vigiada pela Scotland Yard, que espera que, através dela, chegue ao criminoso. Para despistar os policiais ela conhece Frank Tupelo (Johnny Deep) em viagem à Veneza e faz com que acreditem que ele é o golpista. As coisas dão errado quando Reginald Shaw (Steven Berkoff), um milionário russo que sofrera um golpe do Pearce, também acaba perseguindo Frank.

A historinha boba até poderia render um filme engraçadinho, mas esquecível. O roteiro sequer se preocupa em ser crível, contendo vários furos e diálogos ridículos, repleto de piadinhas estúpidas com a língua italiana. Mas parece que todos no filme querem boicotar seu próprio trabalho, a começar pelo casal principal. Deep e Jolie sequer fazem esforço para atuar, dizendo suas falas sem nenhuma emoção ou entonação de voz, admitindo que estão ali só pelo dinheiro. Jolie em especial chama a atenção pela inexpressividade, enquanto que Deep até parece se divertir em determinados momentos, mas possui atuação medícore. Igualmente ruim é Paul Bettany, o policial que persegue o casal – mas seu personagem é tão imbecil que até Marlon Brando ficaria patético no papel.


Só que o grande incompetente é mesmo von Donnersmarck. Sem a mínima inspiração, o diretor erra em praticamente todas as sequências. A começar pelo tom do filme, que ele parece acreditar ser sério, provando que não deve ter sequer prestado atenção ao ler o roteiro. As cenas de ação, que poderiam ser um atrativo, praticamente inexistem – e quando aparecem são tão inverossímeis e mal feitas que fazem o espectador bocejar. A escolha da trilha sonora também é desastrosa, gerando um clima de melancolia (deveria ser romance?) que não casa em nenhum momento com o que está sendo mostrado na tela.

Com um final esdrúxulo e incoerente, mas ainda assim previsível, O Turista acaba sendo uma verdadeira sessão de tortura graças à péssima direção, mostrando que os milhões de Hollywood podem fazer muito mal até para bons profissionais.

The Tourist (2010). Dirigido por Florian Henckel von Donnersmarck. Com Johnny Deep, Angelina Jolie, Paul Bettany, Steven Berkoff e Timothy Dalton. 

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Bravura Indômita

Não é novidade a paixão de Joel e Ethan Coen pelo western. Filmes como Gosto de Sangue, Fargo e - principalmente - Onde os fracos não têm vez são bastante influenciados pelo gênero. Ao adaptar a obra de Charles Portis novamente para o cinema - a primeira versão é de 1969 e rendeu a John Wayne um Oscar de melhor ator - os irmãos finalmente realizam o sonho de dirigir um faroeste.

O filme acompanha a jovem Mattie Ross (Hailee Steinfeld), cujo pai é assassinado pelo criminoso Tom Chaney (Josh Brolin). Buscando vingaça, ela contrata o pistoleiro veterano - e bêbado - Rooster Cogburn (Jeff Bridges) para matar o fugitivo. Nessa busca, eles são acompanhados pelo texano LaBoeuf (Matt Damon), que também persegue Chaney por um crime cometido por ele em seu estado natal.

Assim como no filme de Henry Hathaway, o velho oeste aqui retratado não possui nenhum tipo de glamour ou heroísmo.  É um local decadente e sem vida. Cogburn, o protagonista, é um velho decadente, bêbado e caolho - num contraste que funcionava melhor no original, em que o personagem era interpretado por Wayne, consagrado em papéis de heróis rápidos no gatilho. Não que Jeff Bridges se saia mal, pelo contrário: seu Rooster Cogburn é cínico, rabugento e com uma prepotência de quem se acha mais capaz do que realmente é.


Mesmo os vilões não são tão amedrontadores, o que acaba sendo uma decepção, já que eles sequer representam uma amaeça real aos protagonistas. A grande heroína do livro de Portis - e dos dois filmes - é Mattie Ross. Nesse ponto, Hailee Steinfeld acaba sendo uma revelação. A jovem atriz estreante rouba todas as cenas e encanta pela determinação. Sua personagem consegue derrubar todos os homens selvagens do velho oeste com argumentos fortes e fala rápida - além de um bom advogado. A verdadeira "bravura" do título está mais em Mattie do que em quaquer pistoleiro.

Bravura Indômita acaba sendo um filme menor dos irmãos Coen, mesmo sabendo que, em se tratando dos diretores, é bem provável que uma segunda visita à obra a torne mais interessante do que vista pela primeira vez. De qualquer forma, é mais um acerto de uma filmografia rica e que deveria ser mais reconhecida pelos fãs de cinema.


True Grit (2010). Dirigido por Ethan e Joel Coen. Com Hailee Steinfeld, Jeff Bridges, Matt Damon, Josh Brolin, Barry Pepper, Paul Rae, Domhall Gleeson e Ed Corbin.