Sofia Coppola sempre foi fascinada por uma espécie de nobreza, pessoas bem sucedidas financeira e profissionalmente, mas que ainda assim possuem problemas existenciais. Sejam as meninas mais populares do colégio (As virgens suicidas), um ator famoso em decadência e a esposa de um bem-sucedido publicitário (Encontros e desencontros) ou uma rainha fútil e com tendências ao excesso (Maria Antonieta), a diretora/roteirista sempre apostou nesse universo. Em comum, os protagonistas viviam uma luta interna, mistura de solidão com a sensação de não-pertencimento àquele mundo.
Em seu novo trabalho, Um lugar qualquer, Coppola cria mais um personagem para essa galeria: pela primeira vez temos um protagonista homem, Johnny Carlo, ator hollywoodiano famoso (uma espécie de Tom Cruise ou Brad Pitt), vivido por Stephen Dorff. Solitário ao extremo em sua rotina de astro, acompanhamos alguns dias em sua vida, enquanto se preocupa se está sendo seguido por paparazzis, participa de entrevistas coletivas irritantes e tem que conviver com todos os puxa-sacos e egos inflados do star system. Seus únicos momentos mais felizes e autênticos são quando recebe a visita de sua filha, Cleo, interpretada com energia por Elle Fanning.
Com um ritmo lento, composto por planos longos, Coppola faz com que sintamos o mesmo enfado por que passa o protagonista. A diretora já havia mostrado antes (principalmente em Encontros e desencontros) sua capacidade de passar sensações apenas através das imagens, sem exposição excessiva. Não à toa, os primeiros 15 ou 20 minutos do filme quase não possuem diálogos, transmitindo a solidão e o tédio de Johnny. O longa só ganha ritmo e vida durante as visitas de Cleo e, quando ela parte, volta à lentidão anterior.
Mostrando-se mais madura do que em seus trabalhos anteriores, Sofia Coppola faz aqui uma filme quase autobiográfico. Filha de um diretor famoso (o fantástico Francis Ford Coppola), ela reflete em Cleo o sentimento de solidão que deveria sentir quando seus pais viajavam a trabalho e a deixavam sozinha. Além disso, Um lugar qualquer serve para desmistificar a vida de uma estrela de Hollywood, cheia de mordomias e regalias, mas longe do que chamaríamos de normal, sendo muitas vezes enfadonha e vazia.
Trazendo um belo casamento entre o plano inicial e o final - Johnny deixa de andar em círculos, preso à rotina, para se libertar e ir em linha reta rumo ao desconhecido -, Um lugar qualquer pode frustar alguns que esperavam por algum clímax mais claro e uma narrativa mais tradicional. Mas é um belo filme de uma diretora mais conhecida pelas sutilezas do que pelos excessos.
Somewhere (2010). Dirigido por Sofia Coppola. Com Stephen Dorff, Elle Fanning, Chris Pontius, Lala Sloatman, Amanda Anka, Ellie Kemper e Michelle Monaghan.
sábado, 29 de janeiro de 2011
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
Inverno da alma
Em diversos aspectos, Inverno da alma lembra bastante outro longa produzido nos Estados Unidos nos últimos anos, Rio Congelado. Ambas as obras premiadas no Festival de Sundance, principal termômetro do cinema independente daquele país, revelam uma realidade dura dos confins da América. Acompanham histórias de pobreza, desilusão e sobrevivência no interior gelado e sem perspectivas num país conhecido pelas possibilidades.
Inverno da alma conta a história de Dee (Jennifer Lawrence), uma adolescente de 17 anos que, sozinha, tem que cuidar da mãe doente e dos dois irmãos pequenos. Seu pai criminoso foi preso e ao conseguir uma fiança para responder em liberdade, dá como garantia todos os bens da família. Próximo ao julgamento, ele não comparece à audiência e é dado como fugitivo, tendo Dee que encontrá-lo em uma semana, correndo risco de ser despejada.
A crueza da obra é clara desde o início. Todo o ambiente em que a protagonista vive é sujo, decadente, empobrecido. A bela fotografia com cores mortas demonstra a tristeza do local e a falta de esperança daqueles personagens. Dee vive num submundo em que as mulheres são submissas aos homens, que representam figuras de poder dentro dos lares. Sua independência forçada a distancia de todos, chegando muitas vezes a ser uma pessoa temida. Mas no fundo, ela é apenas uma jovem que abandona seus sonhos e carrega o peso e a reponsabilidade de cuidar sozinha da família tão cedo.
Nesse ponto, a atuação de Jennifer Lawrence é espetacular. Sempre com um olhar sério, postura firme e corajosa diante dos ameaçadores adultos ao seu redor, a garota ao mesmo tempo demonstra cuidado e carinho com os irmãos pequenos. Em determinado momento, ferida após uma briga, a primeira coisa que pergunta antes de finalmente descansar é se as crianças haviam feito o dever de casa. Uma personagem que carrega o filme, assim como o Teardrop vivido por John Hawkes, que no início parece ser mais um dos brutos homens da região, transformando-se durante a história em uma figura paterna importante para Dee.
Funcionando bem como thriller em sua segunda parte, Inverno da alma é um filme que se segura pelos grandes personagens e pela bela direção de Debra Granik.
Winter's bone (2010). Dirigido por Debra Granik. Com Jennifer Lawrence, John Hawkes, Isaiah Stone, Ashlee Thompson, Lauren Sweetser, Dale Dickey e Garret Dillahunt.
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
Biutiful
"Pai, como se escreve beautiful?"
"Da mesma forma que se diz."
"Com i?"
"Sim."
Uxbal (Javier Bardem) é um sujeito que vive no submundo. Alicia imigrantes ilegais, principalmente chineses, que vivem de forma desumana e em regime de trabalho praticamente escravo. É pai de duas crianças e cuida sozinho delas, já que a mãe passa boa parte de seus dias bêbada, drogada ou se prostituindo. Diante de todos esses problemas, ele descobre que está com câncer terminal e tem menos de dois meses de vida.
Alejandro González Iñarritu sempre apostou no melodrama e na tragédia como motores de seu filme. Em Biutiful, ele desiste do mosaico de histórias paralelas, marca de sua parceria com o roteirista Guillermo Arriaga em Amores Brutos, 21 Gramas e Babel, e aposta em apenas um protagonista. Não que aqui não exista a tentativa de desenvolver outros personagens, principalmente em pequenas narrativas envolvendo os imigrantes ilegais, mas o centro do filme é Uxbal.
Iñarritu continua com o mesmo estilo de direção mostrado em suas obras anteriores: câmera na mão e planos fechados, quase claustrofóbicos, no rosto de seus atores. Isso reforça o tom dramático e intimista do filme. O problema, talvez um resquício de Babel, seu último filme, é que seu roteiro (escrito junto com Armando Bo e Nicolás Giacobone) não se resume apenas ao drama dos personagens, tentando dar ares políticos à obra. Mesmo assim, a reflexão que o filme tenta fazer sobre imigração ilegal e os problemas da globalização, fica apenas na superficialidade e desvia o foco do longa.
Da mesma forma, apesar de seu estilo melodramático, Biutiful é bem mais frio do que se poderia imaginar. Muito pelo artificialismo do roteiro, que força a barra ao tentar criar sempre uma tragédia maior do que a outra. Ou também pelos personagens mal desenvolvidos, que beiram à caricatura, como a esposa de Uxbal, interpretada por Maricel Álvarez de forma constrangedora. Já a relação homossexual entre dois chineses que comandam o trabalho dos demais ilegais não acrescenta em nada à história principal, servindo apenas como engodo, tornando o filme mais longo do que deveria.
Uma pena, portanto, que a obra esteja aquém de seu protagonista. Uxbal, por mais que suas atitudes e ações sejam condenáveis, não faz as coisas por mal. Ele realmente acredita que, ao dar uma oportunidade aos ilegais, está ajudando a melhorar suas vidas. Sua reação ao saber da doença e o fato de saber que irá deixar seus filhos da mesma forma que foi abandonado por seu pai torna o personagem ainda mais complexo. A atuação de Javier Bardem é soberba, fazendo por merecer o prêmio recebido em Cannes e a indicação ao Oscar. O diálogo que abre esse texto, de Uxbal com a filha, resume bem o personagem: uma pessoa que tenta ao máximo fazer o que acredita ser certo, mesmo que não esteja correto perante à sociedade.
No meio de Biutiful há um belo drama sobre o amor entre pai e filhos. Mas a insistência de Iñarritu no melodrama e na relevância política de sua obra acaba enfraquecendo o que podia ser uma bela história.
Biutiful (2010). Dirigido por Alejandro González Iñarritu. Com Javier Bardem, Maricel Álvarez, Hanaa Bouchaib, Guillemo Estrella, Eduard Fernández, Diaryatou Daff, Cheng Tai Shen e Luo Jin.
"Da mesma forma que se diz."
"Com i?"
"Sim."
Uxbal (Javier Bardem) é um sujeito que vive no submundo. Alicia imigrantes ilegais, principalmente chineses, que vivem de forma desumana e em regime de trabalho praticamente escravo. É pai de duas crianças e cuida sozinho delas, já que a mãe passa boa parte de seus dias bêbada, drogada ou se prostituindo. Diante de todos esses problemas, ele descobre que está com câncer terminal e tem menos de dois meses de vida.
Alejandro González Iñarritu sempre apostou no melodrama e na tragédia como motores de seu filme. Em Biutiful, ele desiste do mosaico de histórias paralelas, marca de sua parceria com o roteirista Guillermo Arriaga em Amores Brutos, 21 Gramas e Babel, e aposta em apenas um protagonista. Não que aqui não exista a tentativa de desenvolver outros personagens, principalmente em pequenas narrativas envolvendo os imigrantes ilegais, mas o centro do filme é Uxbal.
Iñarritu continua com o mesmo estilo de direção mostrado em suas obras anteriores: câmera na mão e planos fechados, quase claustrofóbicos, no rosto de seus atores. Isso reforça o tom dramático e intimista do filme. O problema, talvez um resquício de Babel, seu último filme, é que seu roteiro (escrito junto com Armando Bo e Nicolás Giacobone) não se resume apenas ao drama dos personagens, tentando dar ares políticos à obra. Mesmo assim, a reflexão que o filme tenta fazer sobre imigração ilegal e os problemas da globalização, fica apenas na superficialidade e desvia o foco do longa.
Uma pena, portanto, que a obra esteja aquém de seu protagonista. Uxbal, por mais que suas atitudes e ações sejam condenáveis, não faz as coisas por mal. Ele realmente acredita que, ao dar uma oportunidade aos ilegais, está ajudando a melhorar suas vidas. Sua reação ao saber da doença e o fato de saber que irá deixar seus filhos da mesma forma que foi abandonado por seu pai torna o personagem ainda mais complexo. A atuação de Javier Bardem é soberba, fazendo por merecer o prêmio recebido em Cannes e a indicação ao Oscar. O diálogo que abre esse texto, de Uxbal com a filha, resume bem o personagem: uma pessoa que tenta ao máximo fazer o que acredita ser certo, mesmo que não esteja correto perante à sociedade.
No meio de Biutiful há um belo drama sobre o amor entre pai e filhos. Mas a insistência de Iñarritu no melodrama e na relevância política de sua obra acaba enfraquecendo o que podia ser uma bela história.
Biutiful (2010). Dirigido por Alejandro González Iñarritu. Com Javier Bardem, Maricel Álvarez, Hanaa Bouchaib, Guillemo Estrella, Eduard Fernández, Diaryatou Daff, Cheng Tai Shen e Luo Jin.
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
Tio Boonmee, que pode recordar suas vidas passadas
Até meados do ano passado, Apichatpong Weerasethakul era conhecido apenas por espectadores de festivais e do circuito independente. Quando Tio Boonmee, que pode recordar suas vidas passadas ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes 2010, seu estranho nome tornou-se famoso mundialmente por todos que acompanham cinema. Tio Boonmee é peculiar pelo fato de ser um filme diferente de tudo que chega às nossas telonas, o que o torna ainda mais interessante.
O tio do título, interpretado por Thanapat Saisaymar, está à beira da morte por causa de uma falência renal e resolve passar seus últimos dias de vida em uma fazenda no interior da Tailândia. Juntos estão um sobrinho e a irmã. É quando ele começa a receber visitas de sua esposa morta e de seu filho desaparecido, transformado em uma criatura da floresta.
A história assim descrita pode parecer linear, mas Weerasethakul não entende cinema como algo a ser resumido por sua narrativa. Ele utiliza a imagem para passar ideias acima de tudo. Pode parecer estranho ao espectador quando o filme interrompe a narrativa principal para mostrar um episódio envolvendo uma princesa, que aparentemente não tem nenhuma relação com Boonmee. Da mesma forma, a sequência final envolvendo a irmã de Boonmee e um budista poderia parecer dispensável se persarmos de forma casualística.
Mas Weerasethakul não tem essas preocupações. Seu filme é acima de tudo contemplativo. Os planos são longos, abertos. O tempo é bastante lento, tanto na duração das tomadas quanto no próprio ritmo das sequências e das atuações. Fundamental também é o design de som, que nos transporta exatamente para o mato, para as origens do homem e da vida.
Tio Boonmee é, enfim, um filme sobre a comunhão do homem com a natureza. A morte seria apenas mais uma etapa da existência. Fundamentado na cultura budista, Weerasethakul critica a alienação dos humanos, que se preocupam demais com questões puramente materiais como beleza, guerras e dinheiro. Nós só encontramos a paz quando deixamos de nos preocupar com essas coisas, seja através da morte (caso da mulher de Boonmee) ou pela fuga e retorno à natureza (como o filho). Não à toa que o protagonista decide morrer em uma caverna, debaixo da terra, na origem de tudo.
Apesar da exposição deste filme, é improvável que os próximos trabalhos de Weerasethakul ganhem mais espaço no circuito comercial, continuando restrito às mostras e festivais. É um tipo de cinema que revela um outro mundo, muito distante, mas que deveria ser bem mais conhecido e debatido.
Loong Boonmee raleuk chat (2010). Dirigido por Apichatpong Weerasethakul. Com Thanapat Saisaymar, Jenjira Pongpas, Sakda Kaewbuadee e Natthakarn Aphaiwonk.
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