sexta-feira, 18 de janeiro de 2013
Django Livre
Mestre das referências, das homenagens e das citações cinematográficas, Quentin Tarantino parece ter chegado em um momento da carreira em que seu estilo deixa de ser novidade e passa a se tornar repetição. Django Livre, seu sétimo filme em pouco mais de 20 anos como diretor, possui as características básicas de sua filmografia - histórias movidas pelo diálogo, pela violência explícita e pela reverência aos gêneros cinematográficos -, mas já dá sinais de desgaste dessa fórmula. Seus bons momentos fazem o longa valer a pena, mas ainda assim parecem cópias inferiores de situações vistas anteriormente.
Desta vez homenageando o blaxploitation e o western spaghetti - subgêneros também trabalhados em obras como Jackie Brown, Kill Bill e À Prova de Morte -, Django Livre acompanha o personagem título (Jamie Foxx), um escravo do sul dos Estados Unidos, posto em liberdade por um dentista caçador de recompensas, King Schultz (Christoph Waltz), para que possa auxiliá-lo na busca por um bando foragido. Posteriormente, quando o companheirismo entre os dois se fortalece, Schultz promete ajudar Django a libertar sua esposa Broomhilda (Kerry Washington), escrava do rico fazendeiro Calvin Candie (Leonardo DiCaprio). Um enredo simples, mas que nas mãos de Tarantino tende a se transformar em espetáculo pop.
É o que acontece aqui, mas em menor escala em relação às produções anteriores do diretor e roteirista. Há poucos diálogos memoráveis, sendo que o único monólogo notável envolve o personagem de DiCaprio e um crânio - aliás, toda a sequência da negociação final entre Candie e Schultz é muito bem escrita, resultando num dos principais momentos do filme. Tarantino continua criando personagens singulares, como Django, Schultz e Candie, além de Stephen, escravo vivido por Samuel L. Jackson. As atuações, aliás, são o ponto alto do longa, beneficiadas, é claro, pelo roteiro. É o caso de Waltz, que assim como em Bastardos Inglórios, rouba o filme para si - e vem sendo indicado a prêmios pelo papel. Mas mesmo seu dr. Schultz se empalidece à frente do brilhante coronel Hans Landa, do filme anterior.
E esse é o maior problema de Django Livre: a impressão de que tudo que acontece em tela é uma versão pobre de sequências vistas em outros filmes do cineasta. Sim, a discussão envolvendo as máscaras dos cavaleiros de uma espécie de pré-Klu Klux Klan é divertida, mas lembra muito o diálogo sobre os codinomes da gangue de Cães de Aluguel. Outro momento que remete ao primeiro longa do diretor é quando ocorre a quase mutilação do protagonistas - só que, ao invés de vermos Michael Madsen em cena, temos Walton Goggins. E se o tiroteio envolvendo Django e vários capangas de Candie chama atenção pela forma ao mesmo tempo sangrenta e cômica como é filmada, ele nos remete ao confronto da Noiva com os cem ninjas em Kill Bill. É como se Tarantino, além de homenagear os gêneros que fomentaram sua paixão pelo cinema, também começasse a revisar sua própria cinematografia.
E não é só em termos de roteiro que Django Livre fica aquém dos outros trabalhos do diretor. Tecnicamente, o filme também tem problemas. Desta vez apostando em uma narrativa mais linear, sem as idas e vindas do tempo características de seus primeiros trabalhos, a montagem sofre com o ritmo - sinal claro da tumultuada produção do longa. O último ato é bem corrido, dando a impressão de que a história precisa urgentemente ser finalizada, o que pode ser constatado também pela própria duração do filme: mais de duas horas e quarenta minutos. Da mesma forma, a fotografia, mesmo contando com planos inspirados e iluminação precisa, fica aquém da beleza plástica de obras como Kill Bill ou Bastardos Inglórios - o que, se tratando de um western, é um problema.
Contando com uma breve participação de Franco Nero, o Django original do filme dirigido por Sergio Corbucci em 1966, Django Livre tem seus momentos de brilhantismo e outros que soam como mais do mesmo. Prova de que talvez Tarantino precise se reciclar para não se tornar uma paródia de si mesmo.
Django Unchained (EUA, 2012). Dirigido por Quentin Tarantino. Com Jamie Foxx, Christoph Waltz, Leonardo DiCaprio, Kerry Washington, Samuel L. Jackson, Walton Goggins, Dennis Christopher, Laura Cayouette, James Remar, David Steen, Ato Essandoh, Sammi Rotibi, M. C. Gainey, Brunce Dern, Cooper Huckabee, Jonah Hill e Franco Nero.
terça-feira, 8 de janeiro de 2013
Apostas para o Oscar 2013
Melhor Filme
Minhas apostas: Lincoln, A Hora Mais Escura, Argo, Os Miseráveis, O Lado Bom da Vida, As Aventuras de Pi, Django Livre e Indomável Sonhadora
Também têm chances: Moonrise Kingdom, Amor, 007 - Operação Skyfall, O Exótico Hotel Marigold, O Mestre
Os seis primeiros filmes da lista são apostas garantidas. Como os indicados podem variar até dez, é bem complicado prever quantos serão. Eu dou certo como oito, mas podem ser mais (como no ano passado). Django Livre ganhou força desde o Globo de Ouro e Indomável Sonhadora é o indie do ano. Ambos foram indicados pelo Sindicato dos Produtores. A curiosidade é se Skyfall conseguirá emplacar uma indicação, sendo o primeiro filme sobre 007 a conseguir tal feito - e no ano da comemoração dos 50 anos da franquia. Acho improvável, mas tudo é possível.
Melhor Diretor
Minhas apostas: Ben Affleck (Argo), Steven Spielberg (Lincoln), Kathryn Bigelow (A Hora Mais Escura), Ang Lee (As Aventuras de Pi) e Michael Haneke (Amor)
Também têm chances: Tom Hooper (Os Miseráveis), David O. Russell (O Lado Bom da Vida), Quentin Tarantino (Django Livre)
Uma das categorias mais difíceis de prever, com uma concorrência acirrada. Affleck, Spielberg e Bigelow são nomes certos. Lee vem sendo lembrado e foi indicado ao DGA, então o considero dentro também. O mesmo valeria para Hooper, mas seu nome é o mais fraco entre aqueles indicados pelo Sindicato dos Diretores. Por isso, vejo chances para Tarantino emplacar, assim como Russell. É preciso lembrar também que a Academia costuma homenagear diretores estrangeiros de renome que se destacaram no ano mesmo não emplacando Melhor Filme (como Julian Schnabel por O Escafrando e a Borboleta em 2008 e Fernando Meirelles por Cidade de Deus em 2003), então há chances para Haneke. Estou apostando neste último, mas qualquer um dos outros tem chances.
Melhor Ator
Minhas apostas: Daniel Day-Lewis (Lincoln), Denzel Washington (O Voo), John Hawkes (As Sessões), Hugh Jackman (Os Miseráveis) e Bradley Cooper (O Lado Bom da Vida)
Também têm chances: Joaquin Phoenix (O Mestre), Richard Gere (A Negociação), Jean-Louis Trintignant (Amor)
O favorito para ganhar, disparado, é Day-Lewis. Phoenix, que parecia ser o único concorrente, ficou fora do SAG e perdeu muita força, sendo provável que fique de fora. Acredito que os indicados serão os mesmos do SAG, com pouca possibilidade de surpresas.
Melhor Atriz
Minhas apostas: Jennifer Lawrence (O Lado Bom da Vida), Jessica Chastain (A Hora Mais Escura), Marion Cotillard (Ferrugem e Osso),Naomi Watts (O Impossível) e Emmanuelle Riva (Amor)
Também têm chances: Quvenzhané Wallis (Indomável Sonhadora), Helen Mirren (Hitchcock), Rachel Weisz (The Deep Blue Sea)
A disputa pela estatueta será entre Lawrence e Chastain. Tirando as duas, nenhuma outra indicação é certeza. Cotillard vem sendo lembrada nas premiações até agora, mesmo por um filme francês (aliás, seria sua segunda indicação, ambas por filmes de sua terra natal). Watts também vem se consolidando. A última vaga da lista deve ficar com uma de duas atrizes com diferentes tempos de carreira: a veterana Riva, do alto de seus 85 anos, e a amadora Wallis, com pouco mais de 9. Para a primeira, a indicação seria uma homenagem pela carreira - além de seu desempenho memorável no filme de Haneke. Já para a segunda, seria um reconhecimento - e o Oscar adora homenagear crianças com atuações marcantes, principalmente nas categorias femininas. Aposto mais em Riva.
Melhor Ator Coadjuvante
Minhas apostas: Tommy Lee Jones (Lincoln), Philip Seymour Hoffman (O Mestre), Alan Arkin (Argo), Robert DeNiro (O Lado Bom da Vida) e Javier Bardem (007 - Operação Skyfall)
Também têm chances: Matthew McConaughey (Magic Mike), Leonardo DiCaprio (Django Livre), Christoph Waltz (Django Livre)
Pouco espaço para surpresas aqui, ao menos aparentemente.
Melhor Atriz Coadjuvante
Minhas apostas: Anne Hathaway (Os Miseráveis), Sally Field (Lincoln), Helen Hunt (As Sessões), Nicole Kidman (The Paperboy) e Maggie Smith (O Exótico Hotel Marigold)
Também têm chances: Amy Adams (O Mestre), Judi Dench (O Exótico Hotel Marigold), Ann Dowd (Compliance), Maggie Smith (Quartet)
Hathaway e Field estão garantidas - e devem brigar pela estatueta, com maiores chances para a primeira. Acredito que Hunt e Kidman também são nomes certos na categoria. Maggie Smith e Amy Adams devem lutar pela última vaga, com vantagem de Smith pelo fato de ter sido indicada ao SAG e Adams não.
Melhor Filme Estrangeiro
Minhas apostas: Amor (Áustria), Intocáveis (França), O Amante da Rainha (Dinamarca), Além das Montanhas (Romênia) e No (Chile)
Outros concorrentes: War Witch (Canadá), Kon-Tiki (Noruega), The Deep (Islândia), Sister (Suíça)
Uma categoria sempre difícil de prever. Amor e Intocáveis são favoritos e se um deles ficar de fora seria uma grande surpresa.
Melhor Animação
Minhas apostas: Valente, Frankenweenie, Detona Ralph, ParaNorman e O Gato do Rabino
Também têm chances: A Origem dos Guardiões, Hotel Transilvânia, Le Tableau, Kokuriko-Zaka Kara
Outra categorias que sempre traz uma surpresa. Seria mais seguro colocar A Origem dos Guardiões como o quinto filme, mas acho que O Gato do Rabino tem chances. Não seria surpresa também vermos entre os indicados o francês Le Tableau ou o japonês Kokuriko-Zaka Kara (dirigido por Goro Miyazaki, filho de Hayao Miyazaki).
Melhor Roteiro Original
Minhas apostas: A Hora Mais Escura, Django Livre, Moonrise Kingdom, Looper e Amor
Também têm chances: O Mestre, Sete Psicopatas e Um Shih Tzu, O Voo
Não acredito que os indicados sejam diferentes dos citados acima. Única mudança pode ser o roteiro de O Mestre no lugar de Amor.
Melhor Roteiro Adaptado
Minhas Apostas: Argo, Lincoln, O Lado Bom da Vida, As Aventuras de Pi e Indomável Sonhadora
Também têm chances: As Sessões, Os Miseráveis, O Exótico Hotel Marigold
O mesmo de roteiro original, só que vejo essa lista como mais fechada ainda.
Melhor Documentário
Minhas apostas: The Gatekeepers, The Invisible War, How to Survive a Plague, The Waiting Room e Central Park Five
Também têm chances: Searching for Sugar Man, Isto não é um Filme, Chasing Ice, Mea Maxima Culpa: Silence in the House of God, The House I Live In,
A maior parte é chute. The Gatekeepers, The Invisible War e How to Survive a Plague me parecem os mais prováveis.
Melhor Montagem
Minhas apostas: Argo, A Hora Mais Escura, Lincoln, As Aventuras de Pi e Django Livre
Também têm chances: Os Miseráveis, 007 - Operação Skyfall, A Viagem
Uma categoria importante, já que restringe quem ganhará Melhor Filme - é muito raro um longa vencer o prêmio principal sem ser indicado em montagem. Os três primeiros entram de qualquer jeito. Os dois últimos podem sair e ceder espaço para Os Miseráveis ou Skyfall. Uma indicação para A Viagem seria muito merecida.
Melhor Fotografia
Minhas apostas: As Aventuras de Pi, Lincoln, 007 - Operação Skyfall, Os Miseráveis e Anna Karenina
Também têm chances: O Mestre, Django Livre, A Hora Mais Escura
Estou apostando nos mesmos indicados pelo sindicato da categoria. Mas os outros três também têm chances.
Melhor Direção de Arte
Minhas apostas: Os Miseráveis, Lincoln, Anna Karenina, Django Livre e Moonrise Kingdom
Também têm chances: O Hobbit: Uma Jornada Inesperada, As Aventuras de Pi, Prometheus
Categoria difícil, mas aposto nos mais prováveis, com O Hobbit correndo por fora.
Melhor Figurino
Minhas apostas: Os Miseráveis, Lincoln, Anna Karenina, Argo e Django Livre
Também têm chances: O Hobbit: Uma Jornada Inesperada, Branca de Neve e o Caçador, Moonrise Kingdom, Espelho, Espelho Meu
O mesmo de Direção de Arte.
Melhor Maquiagem
Minhas apostas: O Hobbit: Uma Jornada Inesperada, Homens de Preto 3 e Lincoln
Também têm chances: Os Miseráveis, Looper, Branca de Neve e o Caçador, Hitchcock
Esta categoria possui uma pré-lista de sete indicados e só indica três concorrentes (vai entender...). Sempre costumam entrar blockbusters, por isso aposto forte em O Hobbit e MiB 3. Acho que Lincoln e Os Miseráveis brigam pela última vaga.
Melhores Efeitos Visuais
Minhas apostas: As Aventuras de Pi, O Hobbit: Uma Jornada Inesperada, Os Vingadores, Prometheus e Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge
Também têm chances: A Viagem, Branca de Neve e o Caçador, 007 - Operação Skyfall
O paraíso dos filmes pipoca. Minhas cinco apostas são as mais prováveis. O trabalho de A Viagem também é bem feito e podem chamar mais atenção que os efeitos "realistas" de Batman.
Melhor Trilha Sonora
Minhas apostas: Lincoln, Anna Karenina, As Aventuras de Pi, Indomável Sonhadora e Argo
Também têm chances: A Viagem, A Hora Mais Escura, O Hobbit: Uma Jornada Inesperada, Valente
As cinco apostas são os nomes mais fortes. A Viagem corre por fora.
Melhor Canção
Minhas apostas: "Suddenly" (Os Miseráveis), "Skyfall" (007 - Operação Skyfall) e "Touch the Sky" (Valente)
Também têm chances: "Pi's Lullaby" (As Aventuras de Pi), "Strange Love" (Frankenweenie)
Categoria chata, com o número de indicados podendo variar, com o mínimo de dois e o máximo de cinco. Por isso, muito difícil de prever os indicados. Acho que as canções de Os Miseráveis e Skyfall entram. A de Valente também é bacana, então aposto nela também. O resto, não faço ideia.
Melhor Mixagem de Som
Minhas apostas: Os Miseráveis, A Hora Mais Escura, 007 - Operação Skyfall, O Hobbit: Uma Jornada Inesperada e Lincoln
Também têm chances: As Aventuras de Pi, Os Vingadores, Argo, Batman - O Cavaleiro das Travas Ressurge
Estou apostando nos mesmos indicados pelo sindicato da categoria. Mas As Aventuras de Pi, Os Vingadores e Argo também têm bons trabalhos de mixagem. Já sobre Batman, é preciso ver se a Academia gostou do trabalho na voz do Bane.
Melhor Edição de Som
Minhas apostas: A Hora Mais Escura, 007 - Operação Skyfall, O Hobbit: Uma Jornada Inesperada, As Aventuras de Pi e Os Miseráveis
Também têm chances: Lincoln, Os Vingadores, Argo, Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge
Geralmente os indicados de edição e mixagem de som são quase os mesmos. Aqui só mudo As Aventuras de Pi no lugar de Lincoln.
quarta-feira, 2 de janeiro de 2013
Amor
Muitos se surpreenderam quando Michael Haneke, autor de filmes controversos como Violência Gratuita, A Professora de Piano e Caché, anunciou que faria um longa sobre o amor. Como um cineasta, cuja maior característica de sua obra é o pessimismo com relação à humanidade, retrataria o mais nobre dos sentimentos? O diretor, no fim, filma uma história típica de sua filmografia: um casal de octogenários - Georges (Jean-Louis Trintignant) e Anne (Emmanuelle Riva) - que vê sua rotina mudada quando ela sofre um AVC e tem que ser cuidada pelo marido. O resultado surpreendeu não só pela emoção, mas pela profundidade, além de ter tornado seu diretor como o único na história a receber a Palma de Ouro por dois filmes consecutivos (o anterior foi A Fita Branca).
Não que Haneke fuja de seu estilo. Ao contrário: o diretor não faz questão de usar qualquer tipo de trucagem para amplificar sensações. Seus planos são estáticos, longos, remetendo a um simples observador da situação. Os closes, típicos de filmes que lidam com fortes emoções, são raríssimos. A trilha sonora inexiste - as únicas músicas que ouvimos são diegéticas, ou seja, fazem parte do universo da história. Se determinados momentos chave do longa nos emocionam (e muito) é porque nos identificamos e compreendemos aqueles personagens, suas situações e seus sofrimentos, e não por algum artifício melodramático imposto pela direção.
Portanto, o sucesso do filme não existiria sem as atuações fantásticas de seu casal de veteranos atores - e se ela tem sido injustamente mais lembrada do que ele nesta época de premiações é mais por causa da natureza dos papéis e não pela atuação superior. Riva se entrega completamente e transforma a degeneração física de Anne em algo bastante realista com seu olhar confuso e a incapacidade de falar ou se movimentar. Ao mesmo tempo, consegue demonstrar a irritação da personagem ao se ver presa àquela situação, como nos momentos em que, teimosa, recusa-se a comer. Por outro lado, Trintignant cria um personagem sensível, que sofre intensamente por dentro, mas evita demonstrar sua dor. Seu carinho por Anne e sua relação de confidências é o que move o filme - e quando vemos que ele perde a paciência com a esposa, sentimos de imediato o seu arrependimento. A química entre o casal, portanto, é fundamental para a emoção do filme; e isso fica claro quando Haneke contrapõe duas falas à beira da cama de Anne, uma feita por Georges e outra por Eva (Isabelle Huppert), filha do casal: enquanto ele conta histórias de sua juventude, acalmando-a, Eva a agita com uma conversa enfadonha sobre cotação imobiliária.
Mas há um terceiro personagem importante no filme de Haneke: o apartamento de Georges e Anne. Em um trabalho de direção de arte impecável, o lar do casal reflete, durante toda a história, a evolução do drama pelo qual passam os dois. Inicialmente bastante mobiliado, o apartamento vai se adaptando à doença de Anne, perdendo seus móveis e sua decoração, restando apenas os quadros nas paredes - o que Haneke faz questão de frisar em determinado momento. É igualmente essencial o detalhe das portas sempre permanecerem fechadas, o que deixa a casa com um aspecto claustrofóbico e escuro, representando também o fato de que o casal quer reservar aquela dor para si, evitando interferências externas (mesmo que de uma simples pomba). Por isso a última cena do filme é tão importante (spoilers a seguir): ao notarmos a casa totalmente aberta e iluminada, vemos que o sofrimento realmente terminou - e não é à toa que a única porta ainda fechada seja a do quarto do casal.
E essa é a grande mensagem do filme, que o liga ao resto da filmografia de Michael Haneke: o amor, mais do que qualquer outro sentimento, só é verdadeiro quando é acompanhado de sofrimento. A dedicação e o carinho de Georges são acompanhados da dor e do desespero de ver a si mesmo e à pessoa amada naquela situação. Por isso o casal se recusa e evita falar sobre o estado de Anne, já que as visitas que recebem são o único momento em que podem 'fugir' daquela realidade. Já a decisão final de Georges é complexamente dúbia (spoiler!): ao mesmo tempo em que serve para se livrar de seu fardo, seu ato denota profunda compaixão, já que termina a dor daquela a quem tudo dedicou e por quem sofreu tanto.
Uma história de amor à la Michael Haneke, mas ainda assim uma bela história de amor.
Amour (Áustria, França, Alemanha; 2012). Dirigido por Michael Haneke. Com Jean-Louis Trintignant, Emmanuelle Riva, Isabelle Huppert, Alexandre Tharaud, William Shimell, Ramón Aguirre e Rita Blanco.
domingo, 30 de dezembro de 2012
Melhores de 2012 - Parte 2
2012 foi um ano repleto de filmes medianos. Alguns decepcionaram bastante (Prometheus e Na Estrada, para citar dois). Outros, mesmo bons, foram muito superestimados (Cosmópolis e O Homem da Máfia, por exemplo). O ano não foi bom principalmente para o cinema americano. Da lista a seguir, apenas um dos longas presentes foi produzido nos EUA. Dos blockbusters, apesar de Os Vingadores e O Cavaleiro das Trevas Ressurge terem se saído bem, ainda assim apresentaram problemas óbvios. E não vou nem citar bombas como O Espetacular Homem Aranha, John Carter e Abraham Lincoln: O Caçador de Vampiros.
Mas esse post não é para falar daqueles que desapontaram, mas para indicar os bem sucedidos. Por que o ano também foi pródigo em nos presentear com grandes obras cinematográficas. A seguir, o que 2012 nos trouxe de melhor.
10. Políssia, dirigido por Maïwenn
Um filme quase documental sobre o trabalho da polícia francesa. Uma obra que emociona por seu realismo.
9. Era Uma Vez na Anatólia, dirigido por Nuri Bilge Ceylan
Ceylan transforma um filme policial em um belo exercício de estilo, com ótimos personagens e uma fotografia de tirar o fôlego.
8. Histórias que Só Existem Quando Lembradas, dirigido por Júlia Murat
A quebra da rotina em uma cidadezinha do interior, retratada de forma doce por Murat. Histórias que nunca mais serão esquecidas.
7. O Artista, dirigido por Michel Hazanavicius
Hazanavicius resgata a magia do cinema mudo, numa obra que age simultaneamente como homenagem e exercício de linguagem cinematográfica.
6. Drive, dirigido por Nicolas Winding Refn
Estiloso, moderno e clássico ao mesmo tempo, um estudo de personagem sangrento e muito bem dirigido.
5. Tabu, dirigido por Miguel Gomes
Mais um trabalho espetacular do diretor português, que mistura experimentalismo audiovisual com um texto elegante.
4. O Espião que Sabia Demais, dirigido por Tomas Alfredson
Alfredson cria um drama de espionagem estudado e frio, refletindo a própria personalidade de seu protagonista.
3. A Separação, dirigido por Asghar Farhadi
Uma simples história de separação que serve de veículo para Farhadi analisar a sociedade iraniana moderna.
2. Isto Não É Um Filme, dirigido por Jafar Panahi e Mojtaba Mirtahmasb
O pesadelo de um diretor proibido de filmar. Uma obra relevante política e artisticamente.
1. Holy Motors, dirigido por Leos Carax
Reflexões sobre a identidade humana e os papeis sociais num mundo em que tudo é espetáculo audiovisual. Ao mesmo tempo, uma homenagem ao cinema e a todos os seus gêneros. A obra-prima de 2012.
Mas esse post não é para falar daqueles que desapontaram, mas para indicar os bem sucedidos. Por que o ano também foi pródigo em nos presentear com grandes obras cinematográficas. A seguir, o que 2012 nos trouxe de melhor.
10. Políssia, dirigido por Maïwenn
Um filme quase documental sobre o trabalho da polícia francesa. Uma obra que emociona por seu realismo.
9. Era Uma Vez na Anatólia, dirigido por Nuri Bilge Ceylan
Ceylan transforma um filme policial em um belo exercício de estilo, com ótimos personagens e uma fotografia de tirar o fôlego.
8. Histórias que Só Existem Quando Lembradas, dirigido por Júlia Murat
A quebra da rotina em uma cidadezinha do interior, retratada de forma doce por Murat. Histórias que nunca mais serão esquecidas.
7. O Artista, dirigido por Michel Hazanavicius
Hazanavicius resgata a magia do cinema mudo, numa obra que age simultaneamente como homenagem e exercício de linguagem cinematográfica.
6. Drive, dirigido por Nicolas Winding Refn
Estiloso, moderno e clássico ao mesmo tempo, um estudo de personagem sangrento e muito bem dirigido.
5. Tabu, dirigido por Miguel Gomes
Mais um trabalho espetacular do diretor português, que mistura experimentalismo audiovisual com um texto elegante.
4. O Espião que Sabia Demais, dirigido por Tomas Alfredson
Alfredson cria um drama de espionagem estudado e frio, refletindo a própria personalidade de seu protagonista.
3. A Separação, dirigido por Asghar Farhadi
Uma simples história de separação que serve de veículo para Farhadi analisar a sociedade iraniana moderna.
2. Isto Não É Um Filme, dirigido por Jafar Panahi e Mojtaba Mirtahmasb
O pesadelo de um diretor proibido de filmar. Uma obra relevante política e artisticamente.
1. Holy Motors, dirigido por Leos Carax
Reflexões sobre a identidade humana e os papeis sociais num mundo em que tudo é espetáculo audiovisual. Ao mesmo tempo, uma homenagem ao cinema e a todos os seus gêneros. A obra-prima de 2012.
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