sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Apostas finais para o Oscar 2013

Mesmo com toda a polêmica sobre as mudanças nas datas e na forma de votação, o fato é que o Oscar 2013 será o mais interessante dos últimos anos. Pela primeira vez em muito tempo, algumas categorias estão muito difíceis de prever - eu mesmo já mudei várias apostas nos últimos dias. Alguns vencedores já são dados como certo, mas desta vez temos aquela sensação de que tudo pode mudar na última hora. Já as categorias que premia os diretores, os atores coadjuvantes e as de roteiro - além, de certa forma, a de melhor atriz - são incógnitas, com mais de um candidato. A seguir, minhas tradicionais apostas, alternativas e os meus preferidos em cada categoria:

Melhor filme

Deve ganhar: Argo
Alternativa: O Lado Bom da Vida
Em quem eu votaria: Amor

A grande questão que vem sendo debatida desde que foram anunciados os indicados: poderá Argo vencer mesmo sem que seu diretor tenha sido indicado? Ao que tudo indica, sim. O filme tem vencido tudo. Mesmo que sempre tenha gente lembrando que Conduzindo Miss Daisy foi o único filme em oitenta anos que levou melhor filme sem ter seu realizador concorrendo, é provável que essa estatística mude este ano. E se Argo perdesse, quem seria o vencedor? Muitos apostam em Lincoln, mas eu acho mais provável O Lado Bom da Vida. Nas últimas semanas, a Weinstein Co. tem vendido a ideia de que o filme é uma história séria sobre deficientes mentais e não uma simples comédia romântica (o que ele realmente é). Harvey Weinstein tem experiência em ganhar Oscars, então nunca duvide de seu poder. Mas a tendência é que Ben Affleck ganhe o prêmio, se não como diretor, mas como produtor de seu filme.


Melhor direção

Deve ganhar: Ang Lee, As Aventuras de Pi
Alternativa: David O. Russell, O Lado Bom da Vida
Em quem eu votaria: Michael Haneke, Amor

A grande incógnita da noite. O favorito, Ben Affleck, não foi sequer indicado. Então quem vai levar? Spielberg é o nome mais fácil, mas seu filme não ganhou prêmio importante algum. Ang Lee é outro muito cotado, já que seria uma forma de homenagear um diretor versátil por um filme que parece ter muitos admiradores - e o crescimento de seu nome me leva a apostar nele. David O. Russell conta com a campanha feroz da Weinstein Co. (veja acima), então não dá para descartar seu nome. Até Michael Haneke teria uma chance pequena, uma forma da Academia consagrar um diretor importante. Já para Benh Zeitlin, a indicação já basta - afinal, em seu filme de estreia, ele já foi premiado no Festival de Sundance, em Cannes e foi indicado ao Oscar; quer mais que isso?


Melhor atriz

Deve ganhar: Emmanuelle Riva, Amor
Alternativa: Jennifer Lawrence, O Lado Bom da Vida
Em quem eu votaria: Emmanuelle Riva

O SAG colocou Jennifer Lawrence na dianteira, como favorita, e praticamente tirou as chances de Jessica Chastain. Mas no Oscar há Emmanuelle Riva, francesa, veterana, com uma atuação fantástica e em sua primeira (e provavelmente última) indicação aos 85 anos de idade. E fará 86 exatamente no dia 24 de fevereiro, data da entrega da premiação. Seria tentador para o Oscar premiar essa lenda do cinema - ainda mais porque quem deve anunciar a vencedora é o melhor ator do ano passado, Jean Dujardin, também francês. Mas vale lembrar que muitos votantes não devem ter visto Amor, então as chances de Lawrence também são grandes. 


Melhor ator

Deve ganhar: Daniel Day-Lewis, Lincoln
Alternativa: Hugh Jackman, Os Miseráveis
Em quem eu votaria: Joaquin Phoenix, O Mestre

No domingo, Daniel Day-Lewis deve se tornar o primeiro ator a vencer três vezes esse prêmio. Uma vitória justa, diga-se. Mas eu daria para Phoenix, com uma atuação igualmente monstruosa em um papel bem mais difícil. Mas é complicado questionar o prêmio para Day-Lewis.


Melhor atriz coadjuvante

Deve ganhar: Anne Hathaway, Os Miseráveis
Alternativa: Sally Field, Lincoln
Em quem eu votaria: Helen Hunt, As Sessões

Hathaway é queridinha de todos, boa atriz e chama a atenção apesar de ter pouco tempo em Os Miseráveis. Não é a melhor atuação de todas, mas tem tudo para levar. A alternativa seria a veterana Sally Field, muito boa em Lincoln. Eu votaria em Helen Hunt, mas também ficaria feliz se Amy Adams levasse. O que não vai acontecer. O Oscar é da Hathaway.


Melhor ator coadjuvante

Deve ganhar: Tommy Lee Jones, Lincoln
Alternativa: Robert DeNiro, O Lado Bom da Vida
Em quem eu votaria: Philip Seymour Hoffman, O Mestre

Tommy Lee Jones venceu o SAG e seu nome parece o mais forte. Mas é uma categoria sem favorito claro e pode acontecer uma surpresa. Se DeNiro ganhar, deve ser mais pela carreira do que pela atuação em si. Christoph Waltz também tem chances, mas ele ganhou recentemente por uma atuação semelhante. E se a Academia fosse justa, esse prêmio já era de Philip Seymour Hoffman.


Melhor roteiro original

Deve ganhar: Quentin Tarantino, Django Livre
Alternativa: Mark Boal, A Hora Mais Escura
Em quem eu votaria: A Hora Mais Escura

Tarantino deve ganhar seu segundo Oscar (Pulp Fiction também levou roteiro), por um dos seus trabalhos mais comuns. A curiosidade aqui é que em 2010 ele também concorreu, por Bastardos Inglórios, mas perdeu exatamente para Mark Boal (Guerra ao Terror). E não descartem Haneke aqui também.



Melhor roteiro adaptado

Deve ganhar: Chris Terrio, Argo
Alternativa: Tony Kushner, Lincoln
Em quem eu votaria: Lincoln

Com Ben Affleck fora do prêmio de direção, dá para dizer que o destino da estatueta de roteiro adaptado definirá quem leva Melhor Filme. Os quatro principais concorrentes estão aqui: Argo, Lincoln, O Lado Bom da Vida e As Aventuras de Pi. Chris Terrio deve levar, até porque seria o único prêmio 'principal' que o longa levaria além de Melhor Filme.


Melhor animação

Deve ganhar: Detona Ralph
Alternativa: Valente
Em quem eu votaria: Detona Ralph

O ano foi fraco para as animações. Detona Ralph acaba se destacando por ser o filme mais redondinho. A Academia poderia premiar o Tim Burton pela carreira, mas se Frankenweenie não é uma bomba, também não é digno de prêmios. Não dá pra descartar totalmente a Pixar com Valente, um filme lindo tecnicamente mas emocionalmente vazio. Eu ficaria feliz se o divertido ParaNorman levasse, mas não tem chances. Acaba que a possível vitória de Detona Ralph seria justa.


Melhor filme estrangeiro

Deve ganhar: Amor
Alternativa: O Amante da Rainha
Em quem eu votaria: Amor

Há dois anos, Haneke era o favorito e perdeu para o argentino O Segredo dos Seus Olhos. Agora deve vencer, não só porque seu filme é inegavelmente o melhor dos cinco indicados (e concorre também ao prêmio principal), mas porque a concorrência é bem fraca - tirando o chileno No, nenhum dos outros filmes representa algo especial.


Melhor documentário

Deve ganhar: Searching for Sugar Man
Alternativa: How to Survive a Plague

Não vi nenhum dos indicados. Aposto em Searching for Sugar Man por ter vencido vários precursores, incluindo os prêmios dos sindicatos dos produtores, dos diretores e dos roteiristas.


Melhor montagem

Deve ganhar: William Goldenberg, Argo
Alternativa: Dylan Tichenor e William Goldenberg, A Hora Mais Escura
Em quem eu votaria: A Hora Mais Escura

William Goldenberg vai vencer, isso é quase certo. E deve ser por Argo, já que o filme só tem chances concretas mesmo em outras duas categorias (filme e roteiro). E será merecido, apesar do trabalho em A Hora Mais Escura ser igualmente espetacular.


Melhor fotografia

Deve ganhar: Claudio Miranda, As Aventuras de Pi
Alternativa: Roger Deakins, 007 - Operação Skyfall
Em quem eu votaria: Skyfall

Será que Roger Deakins finalmente leva um Oscar para casa? Acredito que não. A competição é dura, todos os indicados são ótimos, mas As Aventuras de Pi acabe se destacando. O espetáculo visual do filme de Ang Lee chama muito a atenção e deve ganhar.


Melhor desenho de produção

Deve ganhar: Sarah Greenwood e Katie Spencer, Anna Karenina
Alternativa: Rick Carter e Jim Erickson, Lincoln
Em quem eu votaria: Anna Karenina

Anna Karenina deve levar aqui, de forma merecida. Além de Lincoln, As Aventuras de Pi também tem chances. São três grandes trabalhos, mas acho que o filme de Joe Wright merece mais.


Melhor figurino

Deve ganhar: Jacqueline Durran, Anna Karenina
Alternativa: Paco Delgado, Os Miseráveis
Em quem eu votaria: Anna Karenina

Mais um onde Anna Karenina é favorito. Mas aqui vejo chances também para o figurino de Os Miseráveis.


Melhor maquiagem

Deve ganhar: Lisa Westcott e Julie Dartnell, Os Miseráveis
Alternativa: Peter Swords King, Rick Findlater e Tami Lane, O Hobbit: Uma Jornada Inesperada
Em quem eu votaria: O Hobbit: Uma Jornada Inesperada

Aqui está talvez a única chance concreta de O Hobbit levar um prêmio. Mas o provável é que deem o Oscar para Os Miseráveis, como compensação por outras derrotas.


Melhores efeitos visuais

Deve ganhar: As Aventuras de Pi
Alternativa: O Hobbit: Uma Jornada Inesperada
Em quem eu votaria: As Aventuras de Pi

Basicamente Gollum vs. Richard Parker. E o tigre de As Aventuras de Pi leva boa vantagem.


Melhor edição de som

Deve ganhar: 007 - Operação Skyfall
Alternativa: As Aventuras de Pi
Em quem eu votaria: As Aventuras de Pi

As Aventuras de Pi ganhou o prêmio do sindicato, então seria o favorito. Mas como todo mundo vota e geralmente o mais barulhento leva, há chances também para Argo, A Hora Mais Escura e, principalmente, 007 - Operação Skyfall.


Melhor mixagem de som

Deve ganhar: Os Miseráveis
Alternativa: 007 - Operação Skyfall
Em quem eu votaria: Argo

Musicais tendem a levar a melhor aqui, portanto Os Miseráveis é o grande favorito.


Melhor trilha sonora

Deve ganhar: Mychael Danna, As Aventuras de Pi
Alternativa: John Williams, Lincoln
Em quem eu votaria: As Aventuras de Pi

Acredito que o favorito seja As Aventuras de Pi. Mas do outro lado há John Williams em sua 48ª indicação (incluindo trilha e musica original). Ele não ganha desde 1994, então seria uma forma de homenagear um veterano. O absurdo aqui é a não-inclusão da trilha de Indomável Sonhadora, melhor que as cinco indicadas.


Melhor canção

Deve ganhar: "Skyfall", 007 - Operação Skyfall
Alternativa: "Suddenly", Os Miseráveis
Em quem eu votaria: Skyfall

Homenagens aos 50 anos de 007. Presença de vários James Bonds no palco. Um dos melhores filmes da franquia, com o maior número de indicações. Uma música composta pela queridinha do momento. Dificilmente Adele perde esse Oscar.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Indomável Sonhadora


Indomável Sonhadora, longa de estreia do diretor Benh Zeitlin, foi uma das maiores surpresas de 2012. Exibido pela primeira vez no Festival de Sundance, o principal evento do cinema independente norte-americano, a obra logo chamou a atenção da crítica e do público, sendo considerado como um dos destaques da mostra. A curiosidade sobre o filme aumentou ainda mais quando o diretor recebeu a Câmera de Ouro, prêmio do Festival de Cannes destinado a estreantes. Se não bastasse tudo isso, o diretor foi ainda indicado ao Oscar, com Indomável Sonhadora presente em cinco categorias, incluindo melhor filme. E não é para menos: mesmo debutando na função em um longa metragem, Zeitlin mostra segurança e talento, criando um filme belíssimo e emocionante.

Com um elenco repleto de atores amadores, Indomável Sonhadora é protagonizado por Hushpuppy (a espetacular Quvenzhané Wallis, com 5 anos na época das filmagens), uma menina que vive com o pai (Dwight Henry) numa área rural devastada pelo furacão Katrina. Vivendo em uma espécie de comunidade hippie, Hushpuppy tem de lidar com seu amadurecimento, aprendendo a enfrentar os medos, a doença do pai, a vontade de conhecer a mãe e as constantes tempestades que, de uma hora para outra, devastam toda a região.

Zeitlin usa esse contexto para criar uma obra profundamente ambientalista, destacando a relação homem/meio ambiente, mas sem nunca soar panfletário. Isso fica claro pela forma como o filme retrata seus personagens: morando em um lugar devastado pelo clima instável, em meio a destroços, carcaças e pouca higiene, em nenhum momento o roteiro - escrito pelo diretor em parceria com Lucy Alibar, baseado em uma peça desta última - vitimiza esses indivíduos. Pelo contrário: há entre eles um sentimento de liberdade e total comunhão com a natureza. Não é à toa que a protagonista faz diversas comparações entre aqueles humanos e os animais, sendo que os primeiros podem ser considerados as verdadeiras 'bestas' do título original. Lutando pela sobrevivência, eles não abrem mão de sua verdadeira natureza e não apelam para tecnologia ou ferramentas, seja para sobreviverem às tempestades ou para se alimentarem.



Mas o filme só funciona mesmo por causa da relação tocante entre Hushpuppy e seu pai. Trabalhando com uma atriz tão jovem, a equipe de produção sabe que deve apelar para efeitos que melhorem o desempenho de Wallis - e a montagem do filme é muito eficiente nesse ponto. Hushpuppy surge como uma figura impressionante, forte e animalesca, mas também sensível e repleta de dúvidas e questionamentos típicos de alguém de sua idade - e se há muito mérito da direção de Zeitlin em sua atuação, não se pode duvidar da expressividade de Wallis, que se destaca mais de uma vez ao longo da história. Da mesma forma, igualmente fantástico (e injustamente ignorado pelas premiações deste ano) é Dwight Henry, que caracteriza Wink, o pai da protagonista, como um sujeito alcoólatra, duro e que não se esforça para parecer carinhoso, mas que claramente se preocupa com a menina. Os momentos de interação entre pai e filha são os melhores de todo o longa, e a química entre Henry e Wallis é muito eficiente para demonstrar a necessidade mútua que um tem do outro.

Com um estilo de filmagem lírico e poético, beneficiado pela ótima fotografia de Ben Richardson e a maravilhosa trilha sonora criada pelo próprio diretor junto com o compositor Dan Romer, Indomável Sonhadora acompanha o amadurecimento de uma criança que, a partir de seu próprio ponto de vista, aprende a lidar com seus medos, dúvidas e a enfrentar as 'bestas' do mundo. Um trabalho de gente grande, inesquecível, que ajudou a revelar ao mundo os nomes de Benh Zeitlin e Quvenzhané Wallis.

Beasts of the Southern Wild (EUA, 2012). Dirigido por Benh Zeitlin. Com Quvenzhané Wallis, Dwight Henry, Levy Easterly, Lowell Landes, Palmela Harper, Gina Montana e Henry D. Coleman.


domingo, 17 de fevereiro de 2013

Anna Karenina



Terceiro filme da trilogia dos romances literários de época dirigidos por Joe Wright (os outros foram Orgulho e Preconceito e Desejo e Reparação), Anna Karenina é o mais irregular. Adaptando desta vez o obra do russo Tolstoy, o longa narra a história da personagem título (Keira Knightley), uma mulher casada com o político Alexei Karenin (Jude Law) e que se envolve em um romance com o nobre Vronsky (Aaron Taylor-Johnson). Este, por sua vez, está prometido à princesa Kitty (Alicia Vikander), que é alvo da paixão do rico Levin (Domhnall Gleeson). Uma trama novelesca que também traz como personagens o casal Dolly (Kelly McDonald) e Oblonsky (Matthew Macfadyen), este último irmão da protagonista, que tentam manter um casamento fracassado e infeliz.

Gravado quase inteiramente dentro de um teatro, o que reforça o tom melodramático e pomposo da obra, a obra permite que Wright realize vários tipos de experimentações: cenários que se movem, planos-sequência estilizados, trocas de figurino em cena, etc. Aí se encontram os maiores destaques de Anna Karenina, com direito a sequências belíssimas, em especial o longo plano durante um baile que mostra, pela primeira vez, Karenina e Vronksy tendo algum tipo de contato físico. Da mesma forma, o diretor utiliza a teatralidade também como alívio cômico e abusa dos planos líricos e simbólicos. Nesse ponto, a direção de arte, a fotografia e o design de som criam uma ambientações perfeitas e mudanças completas de ares dentro de um espaço limitado.

Mas toda essa atenção dada à parte técnica e artística da obra é deixada de lado em relação ao roteiro e à narrativa. A história parece corrida, os personagens vêm e vão sem que nos identifiquemos, tudo parece batido e já visto antes. Keira Knightley chama a atenção mais por sua magreza mórbida e suas caras e bocas do que por sua personagem. Sua Anna Karenina é uma figura inconstante e tediosa, e a atriz não se esforça muito para mudar essa impressão. Por outro lado, Macfadyen possui ótimo timing cômico e carisma, enquanto Jude Law consegue demonstrar a nobreza de seu personagem - mas ainda assim suas atuações são somente corretas. Já a história envolvendo o casal vivido por Domhnall Gleeson e Alicia Vikander (que está bem melhor como a protagonista de O Amante da Rainha) é irritantemente enfadonha e toda vez que acompanhamos os personagens o filme perde bastante em ritmo.

Mesmo com vária sequências belas, o fato é que Anna Karenina é uma obra fria, sem emoção. Wright tenta apelar muitas vezes para o melodrama, mas falha quase sempre. Um filme ao mesmo tempo lindo e entediante.

Anna Karenina (Reino Unido, 2012). Dirigido por Joe Wright. Com Keira Knightley, Aaron Taylor-Johnson, Jude Law, Matthew Macfadyen, Domhnall Gleeson, Alicia Vikander, Kelly McDonald, Olivia Williams e Emily Watson.


sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

A Hora Mais Escura


É compreensível que um filme como A Hora Mais Escura gere algum tipo de controvérsia. Baseado em fatos recentes e ainda sem o distanciamento histórico aconselhável a este tipo de obra, o segundo longa da parceria entre a diretora Kathryn Bigelow e o roteirista Mark Boal vem sendo alvo de polêmicas desde o seu anúncio, há cerca de dois anos. Ao mesmo tempo em que fez aumentar o interesse pelo filme, o debate em torno do uso da tortura pelos americanos no combate ao terrorismo, da forma desonesta como foi conduzido, diminuiu as chances da dupla conquistar seu segundo Oscar seguido. Uma pena, já que a parceria cria um filme denso, detalhista e complexo, que não deve em nada ao premiadíssimo Guerra ao Terror.

Narrando de forma minuciosa a caça à Osama Bin Laden, Boal e Bigelow apresentam-nos Maya (Jessica Chastain), uma agente da CIA que acaba de ser indicada para trabalhar na busca pelo terrorista. Percorrendo as dificuldades, a burocracia e a dubiedade moral da inteligência americana, Maya transforma-se numa figura obcecada em achar Bin Laden - representando, assim, não apenas o desejo da personagem, mas de boa parte da sociedade americana. Agente talentosa, ela se dedica exclusivamente à procura pelo terrorista - em determinado momento alguém pergunta que outro trabalho ela realizou no mesmo período e ela fica sem resposta - e, quando por fim o acha, seu choro demonstra mais incertezas sobre o futuro do que alívio. Chastain cria uma protagonista forte, persistente e corajosa, que evita demonstrar sentimentos ou fragilidades, humanizando uma personagem misteriosa. Não conhecemos seu passado e isso não nos interessa - o importante aqui é a caçada em si e os fatos que nela ocorreram.

Não à toa, o filme tem sido chamado de "jornalístico" por boa parte da crítica, já que se preocupa muito com os detalhes e os percalços da operação, acima de qualquer interesse em dramatizar a história. Nesse ponto, é válida uma comparação com o também recente Argo: enquanto aquela obra tinha um interesse maior no suspense e no entretenimento, o trabalho de Bigelow é muito mais centrado no realismo, fugindo de tentativas de esticar as sequências ou intensificar as emoções. Não que faltem momentos tensos ou dramáticos em A Hora Mais Escura - há vários, beneficiados pela montagem eficiente da dupla Dylan Tichenor e William Goldenberg (que, curiosamente, também trabalhou em Argo). Mas a intenção aqui não é ser um filme de ação, mas de informação. Por isso a impressão de se tratar de um filme frio e sem emoções, não só graças à direção crua, mas também ao ótimo roteiro, repleto de diálogos e pormenores sobre a operação. Não há tentativa, por exemplo, de tornar os personagens mais palatáveis, mais humanos ou de forçar algum tipo de identificação. Ao contrário do protagonista de Argo - também um agente da CIA -, que tinha uma relação conturbada com a esposa e o filho, o roteiro de A Hora Mais Escura não cria situações dramáticas ou conflitos claros para sua protagonista. Dessa forma, ele foge dos clichês do gênero e torna a experiência de assistir ao filme ainda mais próxima do real e menos de uma obra cinematográfica.



Ainda assim, é um erro apontar que a frieza e a almejada objetividade de A Hora Mais Escura indicam que o filme quer evitar a qualquer custo fazer julgamentos. Há elementos subjetivos presentes na obra, mas eles fogem do simplismo e do maniqueísmo com o qual estamos acostumados. O filme retrata a que ponto um país chegou para enfrentar seus inimigos, escolhendo caminhos pouco nobres e moralmente questionáveis para isso. As cenas de tortura são retratadas de forma crua, feroz e impiedosa. Só um indivíduo com um caso severo de psicopatia pode se identificar, nesse caso, com o torturador e não com o torturado - mesmo que esse último seja um suposto terrorista. Depois de mostrar Maya assistindo aos vídeos dos interrogatórios, Bigelow a filma saindo da sala envolvida pela escuridão, representando o dano psicológico que aquela experiência leva à protagonista. Quando o chefe de Maya, Ben (Jason Clarke) é promovido, o longa faz questão de enfatizar sua mudança física, das roupas maltrapilhas e a barba mal-feita aos ternos e cabelos bem cortados e penteados - frisando que a tortura foi naturalizada pela CIA, levando, inclusive, a postos mais elevados. Essa hipocrisia fica clara no momento em que os agentes discutem as informações que possuem (obtidas, é claro, através da tortura), enquanto que na TV o presidente eleito Barack Obama nega o uso desse tipo de interrogatório.

Fugindo das soluções fáceis e das convenções do gênero, A Hora Mais Escura só incomoda a quem enxerga o mundo de forma maniqueísta (seja na luta do 'bem' contra o 'mal', do 'certo' contra o 'errado', da 'direita' contra a 'esquerda', etc.). Em uma das "polêmicas" cenas de tortura, o personagem de Jason Clarke discute com um terrorista - e enquanto o primeiro cita o sofrimento do 11 de setembro, o segundo fala sobre os constantes bombardeios americanos contra inocentes no Afeganistão. Ao colocar no mesmo patamar esses dois indivíduos e ao não florear os atos da CIA, retirando qualquer indício de heroísmo e dramaticidade de suas ações, Bigelow faz um filme que, na sua 'objetividade', nos faz refletir sobre o mundo cínico em que vivemos.

Zero Dark Thirty (EUA, 2012). Dirigido por Kathryn Bigelow. Com Jessica Chastain, Jason Clarke, Jennifer Ehle, Kyle Chandler, Harold Perrineau, Jeremy Strong, Reda Kateb, James Gandolfini, Stephen Dillane, Mark Strong e Joel Edgerton.