2013 chega ao fim e com ele a lista definitiva dos melhores filmes do ano. A lista a seguir não conta com alguns filmes que perdi (dois que vejo em muitas listas por aí e não consegui assistir a tempo são Rush e Um Toque de Pecado), mas não tem alguns queridinhos da crítica que para mim foram muito superestimados (como Os Suspeitos, Django Livre e Frances Ha). Outros, como Era uma vez na Anatólia e Tabu, que só estrearam em nossos cinemas este ano, já estiveram presentes em listas de anos anteriores. Mas vamos direto ao assunto, com o top 10 de 2013:
10. Gravidade (Gravity; EUA), dirigido por Alfonso Cuarón
Se o 3D serviu para algo no cinema foi para tornar a experiência de assistir a Gravidade em uma sala escura inesquecível. Com uma sequência espetacular depois da outra, Cuarón se afirma como um dos cineastas mais visionários do nosso tempo, com um domínio perfeito da linguagem cinematográfica.
9. Além das Montanhas (Dupa Dealuri; Romênia), dirigido por Cristian Mungiu
Mesmo sem ter a mesma repercussão que seu anterior (4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias), o novo longa de Cristian Mungiu surpreendeu pela forma como retrata como o fanatismo religioso pode arruinar a felicidade de muitas pessoas - e como indivíduos com as melhores das intenções podem praticar atos bárbaros em nome da fé.
8. Killer Joe - Matador de Aluguel (Killer Joe; EUA), dirigido por William Friedkin
A volta em grande estilo do ano, marcando o retorno do veterano William Friedkin com um filme sobre a decadência moral dos Estados Unidos. Além disso, é o ponto alto (ao menos até agora) da virada na carreira do ator Matthew McConaughey. Nunca mais um frango assado será comido da mesma forma depois de se assistir a esse filme.
7. Antes da Meia-Noite (Before Midnight; EUA), dirigido por Richard Linklater
É como reencontrar velhos amigos que não víamos a muito tempo: eles estão mudados, mais velhos, com outras experiências e novos objetivos. O grande êxito não só de Antes da Meia-Noite, mas de toda a trilogia que acompanha o casal Jesse e Céline, é a forma como os dois parecem evoluir através do tempo, com novos dilemas e situações. Um filme para discorrer sobre a paixão, o amor e o compromisso, sem romantizações ou falsas expectativas.
6. Azul é a Cor Mais Quente (La Vie d'Adèle; França), dirigido por Abdellatif Kechiche
O vencedor da Palma de Ouro 2013 é uma história de amadurecimento e descoberta da sexualidade, mas acima de tudo é um belo estudo de personagem. A abordagem de Kechiche é humanista e naturalista, fazendo com que o espectador quase sinta na pele as emoções por que passa sua protagonista - e Adèle Exarchopoulos tem a grande atuação individual do ano.
5. O Mestre (The Master; EUA), dirigido por Paul Thomas Anderson
O Mestre confirmou mais uma vez o nome de Paul Thomas Anderson como um dos mais importantes cineastas da atualidade. Seu trabalho sobre um homem despedaçado e sua admiração por um guru religioso arrancou atuações fantásticas de todo o elenco e alguns dos mais belos momentos do cinema em 2013.
4. Amor (Amour; França), dirigido por Michael Haneke
Haneke filma o amor de sua forma, repleto de sofrimento. Um filme poderoso sobre o fim da vida e a dedicação.
3. O Ato de Matar (The Act of Killing; Reino Unido), dirigido por Joshua Oppenheimer
Durante anos a ditadura da Indonésia contratou matadores de aluguel para se livrar da oposição "comunista". Hoje, com a democracia restituída, aqueles mesmos cidadãos se encontram no poder. O Ato de Matar é um documentário importante não só pelos depoimentos que contém, pela frieza com que aqueles indivíduos narram e encenam seus assassinatos bárbaros; acima de tudo é uma reflexão sobre o próprio cinema e como a fantasia serve para tornar aceitável atos de violência extrema.
2. Upstream Color (idem; EUA), dirigido por Shane Carruth
Depois de estrear com o desafiante Primer, Shane Carruth refina sua forma de contar histórias, com um filme que une a racionalidade do primeiro com um toque de emoção. Seja como romance ou como ficção científica, Upstrem Color utiliza da linguagem cinematográfica para criar uma narrativa que confia tanto na inteligência como na sensibilidade do espectador para funcionar.
1. O Som ao Redor (idem; Brasil), dirigido por Kleber Mendonça Filho
Não só a melhor estreia e o melhor nacional de 2013 - melhor filme, no geral. A obra de Kleber Mendonça Filho é um retrato sobre qualquer grande cidade brasileira. Um filme que reflete as barreiras que construímos ao nosso redor, sejam elas físicas - a cerca, o muro, as grades -, sejam elas sociais - o preconceito, o medo, a falta de diálogo. Uma lição sobre cinema e sobre o Brasil de hoje.
Começo aqui a minha lista com os melhores filmes de 2013. Esse ano acabei não vendo tantos filmes quanto gostaria, mas fiquei muito contente com a lista a seguir. Como costume, selecionei os vinte melhores longas que vi no ano, a maioria lançado em circuito comercial no Brasil, e aqui está a primeira parte da lista. Nos próximos dias, postarei o top 10 do ano.
20. Capitão Phillips (Captain Phillips; EUA), dirigido por Paul Greengrass
Um filme que marcou dois retornos: o de Paul Greengrass à direção de um thriller baseado em histórias reais e o de Tom Hanks às grandes atuações. Ainda que menos tenso que seus dois grandes filmes (Voo 93 e Domingo Sangrento), Greengrass ainda demonstra talento em uma narrativa eletrizante - auxiliado por um Hanks que brilha nos minutos finais da trama.
19. Blue Jasmine (idem; EUA), dirigido por Woody Allen
Woody Allen se reinventa nessa história trágica sobre uma mulher medíocre que se vê forçada a recomeçar a vida depois que seu marido milionário (e vigarista) é preso. Um estudo de personagem raro na carreira do diretor, que mistura crise econômica com Um Bonde Chamado Desejo. A atuação sobrenatural de Cate Blanchett só não é a melhor do ano porque em 2013 também tivemos uma francesa chamada Adèle.
18. Um Estranho no Lago (L'inconnu du Lac; França), dirigido por Alain Guiraudie
Um suspense com elementos de Alfred Hichcock - voyeurismo e conflitos morais - sobre homens solitários em busca do prazer. Também uma metáfora sobre a vida de muitos homossexuais, forçados pela sociedade preconceituosa a se esconder como se sua existência fosse um crime em si. Mais que um "filme gay", Um Estranho no Lago é cinema de grande qualidade.
17. A Bela que Dorme (Bella Addormentata; Itália), dirigido por Mario Bellocchio
Bellocchio faz uma profunda análise sobre a eutanásia e discorre sobre o direito de escolha e as liberdades individuais. Mais do que um filme sobre a morte, A Bela que Dorme é uma obra sobre como lidamos com a nossa vida. Uma obra humanista sobre as escolhas individuais e as diferentes maneiras de aceitar a morte.
16. A Caça (Jagten; Dinamarca), dirigido por Thomas Vinterberg
Primeiro trabalho relevante de Vinterberg desde que apareceu para o mundo há mais de dez anos com o já clássico Festa de Família, A Caça traz Mads Mikkelsen como um professor acusado de pedofilia. O filme traz as consequências de um clima de caça às bruxas e o quanto uma falsa acusação pode marcar para sempre a vida de uma pessoa.
15. A Hora Mais Escura (Zero Dark Thirty; EUA), dirigido por Kathryn Bigelow
Bigelow e o roteirista Mark Boal fizeram um trabalho de pesquisa extenso para contar com detalhes a caça a Osama Bin Laden. Sem fugir da polêmica, com um estilo que mistura documento com thriller, a diretora mais uma vez demonstrou talento nas cenas de ação e de suspense. Mas foi o retrato de um país com políticas contraditórias e ações moralmente questionáveis que tornaram A Hora Mais Escura um filme que a ser visto e debatido.
14. Amor Bandido (Mud; EUA), dirigido por Jeff Nichols
Apesar do péssimo título nacional, Amor Bandido não é um romance, mas uma história de crescimento, centrado em dois garotos que conhecem um estranho indigente e com ele criam uma forte ligação. Um filme sobre amadurecimento que parece saído dos anos 1980 e que mostram que Jeff Nichols - do também excelente O Abrigo - é um nome para ser observado.
13. Cesar Deve Morrer (Cesare Deve Morire; Itália), dirigido por Paolo Taviani e Vittorio Taviani
Os veteranos diretores italianos apresentam um documentário que mistura ficção e realidade, acompanhando um grupo de presidiários - alguns deles condenados a penas duras por crimes como assassinatos - durante os ensaios e a encenação da peça Julio Cesar, de Shakespeare. A partir daí, o filme surpreende ao mostrar que mesmo indivíduos capazes dos atos mais bárbaros e violentos também podem possuir tamanha sensibilidade artística - e podem ter uma segunda chance na vida dentro de um sistema prisional que os respeite como seres humanos.
12. Indomável Sonhadora (Beasts of the Southern Wild; EUA), dirigido por Benh Zeitlin
O filme que revelou o diretor Benh Zeitlin e a atriz Quvenzhané Wallis foi a grande sensação do cinema independente norte-americano de 2012 e surpreendeu com várias indicações ao Oscar. Uma obra sensível e lírica sobre os sonhos infantis mesmo nas piores das realidades.
11. A Grande Beleza (La Grande Bellezza; Itália), dirigido por Paolo Sorrentino
Sorrentino se inspira em Fellini para fazer uma crítica ácida a uma Itália que parece ignorar o seu passado de berço cultural, surgindo como uma caricatura povoada por indivíduos de meia-idade egocêntricos que vivem uma vida medíocre e patética entre um e outro "bunga bunga" berlusconiano.
Gravidade é um filme de naufrágio que se passa no espaço. Dois astronautas, o veterano piloto Matt Kowalsky (George Clooney) e a médica novata Ryan Stone (Sandra Bullock), lutam pela sobrevivência depois de serem atingidos por destroços de um satélite russo, repetindo a velha dinâmica "homem versus natureza". O que chama atenção no filme do diretor e roteirista Alfonso Cuarón é o número de recursos técnicos e de linguagem presentes, com a ausência de gravidade permitindo ao talentoso cineasta uma série de liberdades que são usadas de forma espetacular.
Cuarón já havia demonstrado talento e ousadia em seu filme anterior, o ótimo Filhos da Esperança, lançado no longínquo ano de 2006: um longa repleta de tomadas criativas e planos sequência que chegavam a passar de vinte minutos. Mas em Gravidade ele eleva essa ousadia a um novo patamar - o filme pode ser resumido a uma sequência de planos sem cortes aparentes, todos longuíssimos. Mas isso, surpreendentemente, está longe de tornar o filme enfadonho ou tedioso: Cuarón mantém sempre a câmera em movimento, como se ela estivesse flutuando no espaço, em um ritmo que varia do calmo ao frenético. Isso permite com que ele mude o eixo de filmagem, faça piruetas e entre na visão de seus personagens - há até um "plano sequência-subjetivo". Um show de técnica que faz com que Gravidade seja uma mistura curiosa de blockbuster com filme experimental.
O que também transforma o longa em um espetáculo é o seu grau de realismo. Respeitando as leis da física e usando-as como parte fundamental de sua narrativa, Gravidade se engrandece como suspense exatamente porque tudo que vemos na tela é possível. Esse grau de realidade é auxiliado pela fotografia magistral de Emmanuel Lubezki e pelo trabalho brilhante da equipe de efeitos visuais, que dão vida à Terra e ao espaço criados inteiramente no computador: as luzes das cidades à noite, a aurora boreal esverdeada, o brilho ofuscante do Sol são alguns dos elementos que surgem em seus mínimos detalhes. Já o uso do 3D é um dos mais eficazes já realizados, aumentando a imersão do espectador, além de demonstrar a grandiosidade do espaço em relação aos astronautas e até às estações espaciais, que surgem como pequenos objetos flutuantes na imensidão do universo.
Entretanto, o ponto alto do filme, ao menos tecnicamente, é o seu design de som. Seja nos barulhos abafados dentro do traje dos astronautas, na respiração ofegante e no coração acelerado da protagonista, todo elemento é cuidadosamente integrado à narrativa. Mas é o silêncio absoluto do vácuo que impressiona mais: numa época em que os filmes de ação investem cada vez mais em efeitos sonoros barulhentos e explosões grandiosas, a destruição silenciosa de Gravidade é poderosa e assustadora.
Todo esse cuidado técnico seria em vão se o filme não conseguisse atingir o mesmo sucesso emocionalmente. Mas aí entra o talento de Cuarón também como roteirista e a surpreendente atuação de Sandra Bullock. O roteiro escrito pelo cineasta junto com seu filho, Jonás, consegue construir as motivações da protagonista de forma gradual e aposta numa relação de tutor-aprendiz entre a insegura Stone e o experiente Kowalsky. Bullock entrega a melhor atuação de sua carreira, digna de prêmios, segurando o filme em seus momentos mais dramáticos, enquanto que George Clooney esbanja seu já conhecido carisma. O filme também conta com uma pequena participação de Ed Harris, como a voz do operador na Terra - o mesmo papel que fez em Apollo 13, o que não deixa de ser curioso.
Repleto de momentos que chegam a ser poéticos - as lágrimas de Stone flutuando, por exemplo -, Gravidade é um grande espetáculo visual e emocional. E, claro, o filme não deixa de fazer referências pontuais ao maior clássico do gênero, 2001 - Uma Odisseia no Espaço - quando o homem perde controle de suas ferramentas diante da natureza implacável do universo (o parafuso em Gravidade, a caneta em 2001) ou quando Stone assume uma posição fetal, semelhante ao bebê no final de 2001. Com o talento e o domínio da linguagem cinematográfica que Cuarón demonstra possuir, dá para dizer que Stanley Kubrick ficaria orgulhoso em ser lembrado.
Gravity (EUA, 2013). Dirigido por Alfonso Cuarón. Com Sandra Bullock, George Clooney, Ed Harris e Paul Sharma.
É interessante notar como a carreira de Sofia Coppola como diretora e roteirista tem girado em torno do que se chama lá fora de "first world problems" (ou o nosso "classe média sofre"): narrativas sobre indivíduos de classe média/alta que, mesmo com fácil acesso ao conforto, não conseguem se realizar emocionalmente. Não é a toa que a história de Bling Ring: A Gangue de Hollywood a tenha atraído: seu roteiro, baseado em uma reportagem real da revista Vanity Fair, acompanha um grupo de adolescentes ricos de Los Angeles que começa a assaltar casas de celebridades apenas para exibir os objetos roubados (roupas, bolsas, jóias) como 'troféus' em seus círculos de amizade.
Bling Ring, aliás, casa perfeitamente como o longa anterior da diretora, Um Lugar Qualquer, na crítica feroz que faz ao mundo das celebridades e a toda futilidade que o cerca. Enfocando durante várias passagens do longa a trajetória de escândalos que envolvem algumas vítimas da gangue (como Paris Hilton e, principalmente, Lindsay Lohan), o filme faz questão de mostrá-las como modelo para um geração de jovens superficiais, cuja obsessão pela fama é potencializada pelas redes sociais onde todo momento pode ser registrado e compartilhado - as fotos tiradas pelo celular são onipresentes em toda a história. Essa busca pelo reconhecimento a qualquer custo fica estampado em diversos momentos da história - seja quando Marc (Israel Broussard), um dos membros da grupo, mostra-se frustrado pela sua aparência 'comum', ou quando Rebecca (Katie Chang), a líder da gangue, fica curiosa para saber a reação de Lohan quando esta soube que foi roubada por ela.
O fato é que Coppola conhece bem a situação retratada aqui. Filha de um cineasta famoso e com parentes influentes dentro da indústria, ela possui um olhar de quem conviveu de perto com esse mundinho das celebridades de ocasião. Se em Um Lugar Qualquer, a diretora/roteirista focava o lado dos famosos e sua vida vazia de entrevistas coletivas enfadonhas, jornalistas superficiais e solidão, aqui ela destaca o outro lado da moeda: os consumidores de fofoca. Isso porque os membros da Gangue de Hollywood do título nada mais são do que a representações dessas pessoas - especialistas em celebridades (e subcelebridades), assíduos expectadores de veículos como TMZ e E! Entertainment e adeptos de filosofias baratas de auto-ajuda do momento (no caso, o best-seller O Segredo), Coppola não hesita em mostrá-los como figuras medíocres e tolas. Mas a autora também não perde a oportunidade de cutucar os protagonistas desse mundinho ridículo - e Paris Hilton é retratada, através da decoração de sua casa, repleta de fotos de si mesma, como dona de um ego à la Norma Desmond, personagem do clássico Crepúsculo dos Deuses (com direito até a macaco de estimação).
Ainda assim, o maior defeito de Bling Ring é exatamente o tom da crítica do filme: por mais que seja divertido ver esse universo ser desconstruído, o discurso do longa soa bastante batido, já tendo sido comentado em diversas outras ocasiões - inclusive pela própria diretora. Não há muita originalidade ao ligar a obsessão por roupas e sapatos de marca à futilidade e superficialidade consumistas - ou ao mostrar as jovens meninas que tentam começar a vida em Hollywood e atrair a atenção agentes e produtores através de seu corpo. Coppola até tenta dar certa profundidade aos personagens - principalmente à relação de carência emocional de Marc que faz com que ele se aproxime de Rebecca e acabe sendo usado por ela -, mas esse não é o verdadeiro foco da história. Além disso, as sequências dos roubos, que ocupam boa parte do longa, tornam-o bastante repetitivo e dão impressão de narrativa estagnada, com o filme só voltando a engrenar depois que a gangue é presa.
Com um elenco jovem bastante eficiente e homogêneo, Bling Ring é um filme divertido e na média dos trabalhos anteriores de Coppola - melhor que Maria Antonieta e As Virgens Suicidas, mas inferior a Encontros e Desencontros e Um Lugar Qualquer. Por mais que ela já pareça se repetir nessa temática, ainda demonstra talento e olhar crítico sobre o mundo que a cerca. Afinal, de ricos sofridos Sofia Coppola parece entender muito bem.
The Bling Ring (EUA, 2013). Dirigido por Sofia Coppola. Com Katie Chang, Israel Broussard, Emma Watson, Clarie Julien, Taissa Farmiga, Georgia Rock, Leslie Mann, Carlos Miranda, David Rossdale e Annie Fitzgerald.