segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Oscar 2013 e as "surpresas" esperadas

Primeiro, a cerimônia e seu apresentador. Seth MacFarlane não se saiu muito bem. A impressão era de que o comediante até tinha boas piadas, mas não sabia como contá-las. Faltou timing e ele estava claramente nervoso, ficando um tanto constrangido quando percebia que suas tentativas de humor não funcionavam. Não sei se ele volta para o ano que vem. De qualquer forma, o maior problema do evento não foi o apresentador. Seu monólogo de abertura foi até engraçadinho - principalmente pela participação de William Shatner -, mas acabou sendo longo demais, perdendo a graça. E também foi prejudicado pela insistência da Academia com os números musicais.

Aí reside o problema: o Oscar já é famoso por sua cantoria. Historicamente, sempre houve números musicais, a maioria deles cafona e sem um pingo de criatividade. Recentemente, quando Hugh Jackman apresentou o prêmio, ele também dançou e cantou no palco. Daí surpreende que a Academia mais uma vez resolva homenagear musicais. E para isso ressuscitam Barbra Streisand, Jennifer Hudson e o elenco de Chicago em apresentações longas e chatíssimas.

O fato é que nos últimos anos o Oscar vem tentando renovar seus espectadores, tentando atrair um público mais jovem, mas não parece saber como. Para conseguir isso, mostra que precisa renovar a si próprio. Só colocar os protagonistas de Vingadores, Crepúsculo e Harry Potter para apresentar um prêmio ou dois não é o suficiente. Os Oscars não precisam se transformar no  People's Choice Awards ou no MTV Movie Awards (ambos exemplos de irrelevância e estupidez), mas precisam começar a fazer um evento para quem realmente ama cinema e tem menos de 90 anos. A resposta para isso talvez esteja na própria cerimônia de ontem: a ideia de um tributo a 007 é bem bacana - apesar de não ter sido bem realizada (ressumir 50 anos de franquia a uma apresentação de Shirley Bassey é pouco). Por que não dedicar toda a cerimônia à franquia? É ao mesmo tempo popular e clássico, podendo atingir várias gerações.

Enfim, se a cerimônia foi medíocre como sempre, as premiações estavam um pouquinho mais interessantes. Mas, apesar do ar de incerteza durante boa parte da temporada, o fato é que o resultado final foi o esperado. O que aconteceu foi que houve mais uma "expectativa de surpresa" do que a surpresa em si.

Tudo isso por causa de Melhor Diretor, que serviu como 'pista falsa' no roteiro dos prêmios. Argo, de Ben Affleck, apareceu como favorito desde que começou a ser exibido em festivais, com boa recepção tanto da crítica quanto do público. Aí vieram as indicações e... Affleck estava de fora. O problema é que, logo depois da esnobada, o filme começou a ganhar tudo. Como podia um longa que não teve seu diretor indicado vencer? Algo estava errado. Mas quem poderia derrotá-lo? A resposta devia estar exatamente na categoria de direção. Benh Zeitlin era estreante, a indicação já bastava; Michael Haneke fez um filme falado em francês, difícil, com um tema pouco atraente e que pouca gente na Academia viu; sobraram David O. Russell, Ang Lee e Steven Spielberg. Era natural apostar no último, pela importância de Spielberg para Hollywood, pelo próprio estilo clássico de Lincoln e pelo grande número de indicações do filme. Seria a escolha mais óbvia.

Mas Lincoln era um falso favorito. Nas famosas prévias do Oscar, o filme vinha ganhando só os prêmios de atuação. E as chances do filme com a Academia estavam condicionadas à estatueta de direção; Lincoln só venceria se seu diretor vencesse também. Como muita gente achava que ia vencer direção, tornou-se o maior anti-Argo. Mas aí entra Ang Lee. Assim como Spielberg, o taiwanês também já tinha um Oscar na prateleira. Só que o venceu em uma edição polêmica: ele ganhou por O Segredo de Brokeback Mountain, que depois perdeu o prêmio principal para Crash, no maior vexame da última década. Além disso, Lee é um cara querido, boa pinta, extramente versátil e que fez um filme que, longe de perfeito, tinha momentos belíssimos e talvez fosse o trabalho de direção mais difícil, atrás apenas de Amor. Ao mesmo tempo, As Aventuras de Pi, apesar de seu subtexto espiritual, não era um filme com muita cara de Oscar; estava mais para Avatar do que para Discurso do Rei. Logo, Ang Lee levaria o prêmio mais pela carreira do que por qualquer outra coisa; e aí estava aberto o caminho para Argo ficar com Melhor Filme.

E então chegamos à cerimônia. Para poder vencer o prêmio principal, Argo precisaria ganhar mais estatuetas para se firmar: em especial as de montagem e roteiro adaptado. Foi o que aconteceu. Pouco depois, veio o anúncio do melhor diretor: Ang Lee, por As Aventuras de Pi. Tudo conforme o script para a vitória de Ben Affleck. Só que, então, a Academia resolveu pregar uma peça: naquela que talvez tenha sido a única boa sacada dos produtores este ano, colocaram Michelle Obama para anunciar o vencedor. Não tinha como não questionar: será que Lincoln ganharia? Afinal, era a esposa do primeiro presidente negro dos Estados Unidos, que poderia premiar a biografia do líder que acabou com a escravidão naquele país. Uma virada que pareceria forçada e incoerente, segundo o enredo traçado até então - como disse acima, Lincoln só ganharia se Spielberg também levasse.

Mas, no fim, acabou dando Argo mesmo. Um vencedor de Oscar digno. Não foi, de forma alguma, o melhor filme de 2012. Mas é um trabalho bem realizado, que atinge seus objetivos e que não envergonha ninguém. Está longe de chegar ao nível de um Onde os Fracos Não Têm Vez ou Guerra ao Terror, mas também não chega a Crash ou Discurso do Rei. Em uma premiação que seguiu a fórmula do bom e velho filme médio hollywoodiano - cheia de reviravolta e suspense, mas com um final previsível -, Argo acabou sendo a escolha que resume todo o processo.

Comentários específicos:

* Apenas para comprovar que o Oscar deste ano nem foi tão surpreendente assim: das 21 categorias em que apostei (ou seja, todas menos as dos curtas), eu acertei 17. Dessas, em três (atriz, desenho de produção e animação) venceram minhas segundas opções. Só em ator coadjuvante eu fui "surpeendido": não achava que Christoph Waltz fosse favorito, apostando em Tommy Lee Jones e Robert DeNiro, mesmo que no texto tenha indicado que ele poderia ganhar. Outra coisa que não previ (até porque seria muito difícil) foi o empate em edição de som, apesar de ter apostado em um dos dois vencedores (007 - Operação Skyfall).

* Falando nisso, não acontecia um empate no Oscar desde 1994, quando dois curtas de ficção levaram juntos a estatueta de sua categoria. A divisão de ontem foi a sexta da história.

* Como esperado, Daniel Day-Lewis tornou-se o primeiro ator a possuir três estatuetas da categoria principal. Ele ultrapassou Jack Nicholson, que também tem três Oscars, mas um deles como coadjuvante. Além de Day-Lewis, Sally Field, Robert DeNiro e Steven Spielberg também poderiam ter conquistado seu terceiro Oscar, mas saíram de mãos vazias.

* Ang Lee venceu seu segundo Oscar de direção sem que o filme também fosse premiado. Não é algo inédito, tendo acontecido outras duas vezes: com Frank Bozarge (em 1928 por Sétimo Céu, que perdeu para Asas; e em 1932, quando venceu por Depois do Casamento e Grande Hotel ficou com melhor filme) e com John Ford (ganhou em 1936 e 1941 por O Delator e Vinhas da Ira, perdendo, respectivamente, para O Grande Motim e Rebecca).

* Já há certa comparação entre a vitória de Jennifer Lawrence sobre Emmanuelle Riva  com o que aconteceu em 1999, quando Gwyneth Paltrow derrotou Fernanda Montenegro. Em ambos os casos, uma atriz estrangeira veterana perde para uma jovem estrela. Mas as comparações param por aí. Primeiro porque Lawrence, mesmo com poucos filmes no currículo, já se mostrou mais talentosa que Paltrow. Segundo porque, como apontou Chico Fireman, a vitória da atriz de Shakespeare Apaixonado em 99 foi fruto puro da campanha dos irmãos Weinstein, enquanto que Lawrence tem seus méritos aqui - apesar de também ter a Weinstein Co. ao seu lado. O duro para ela agora é saber qual rumo dará para sua carreira. Hollywood é notória em premiar jovens atrizes que depois desaparecem do mapa. Lawrence ainda vai continuar sob os holofotes nos próximos anos, com as continuações de Jogos Vorazes e o novo X-men, além de já estar confirmada no próximo filme de David O. Russell. Talento ela tem para ser indicada e ganhar mais prêmios.

* Os dois Oscars de 007 - Operação Skyfall (canção e edição de som) transformaram o filme no mais vitorioso da franquia. Antes dele, só Goldfinger (efeitos sonoros) e 007 Contra a Chantagem Atômica (efeitos visuais) já haviam vencido.

* Dos nove indicados a melhor filme, apenas Indomável Sonhadora saiu de mãos vazias. As Aventuras de Pi levou quatro estatuetas; Argo e Os Miseráveis, três; Django Livre e Lincoln, duas; Amor, A Hora Mais Escura e O Lado Bom da Vida, uma cada.

* E, claro, como dito acima e já esperado, Argo tornou-se o quarto filme vencedor do Oscar que não teve seu diretor indicado. Os outros três foram: Asas (1928), Grande Hotel (1932) e Conduzindo Miss Daisy (1989).

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Apostas finais para o Oscar 2013

Mesmo com toda a polêmica sobre as mudanças nas datas e na forma de votação, o fato é que o Oscar 2013 será o mais interessante dos últimos anos. Pela primeira vez em muito tempo, algumas categorias estão muito difíceis de prever - eu mesmo já mudei várias apostas nos últimos dias. Alguns vencedores já são dados como certo, mas desta vez temos aquela sensação de que tudo pode mudar na última hora. Já as categorias que premia os diretores, os atores coadjuvantes e as de roteiro - além, de certa forma, a de melhor atriz - são incógnitas, com mais de um candidato. A seguir, minhas tradicionais apostas, alternativas e os meus preferidos em cada categoria:

Melhor filme

Deve ganhar: Argo
Alternativa: O Lado Bom da Vida
Em quem eu votaria: Amor

A grande questão que vem sendo debatida desde que foram anunciados os indicados: poderá Argo vencer mesmo sem que seu diretor tenha sido indicado? Ao que tudo indica, sim. O filme tem vencido tudo. Mesmo que sempre tenha gente lembrando que Conduzindo Miss Daisy foi o único filme em oitenta anos que levou melhor filme sem ter seu realizador concorrendo, é provável que essa estatística mude este ano. E se Argo perdesse, quem seria o vencedor? Muitos apostam em Lincoln, mas eu acho mais provável O Lado Bom da Vida. Nas últimas semanas, a Weinstein Co. tem vendido a ideia de que o filme é uma história séria sobre deficientes mentais e não uma simples comédia romântica (o que ele realmente é). Harvey Weinstein tem experiência em ganhar Oscars, então nunca duvide de seu poder. Mas a tendência é que Ben Affleck ganhe o prêmio, se não como diretor, mas como produtor de seu filme.


Melhor direção

Deve ganhar: Ang Lee, As Aventuras de Pi
Alternativa: David O. Russell, O Lado Bom da Vida
Em quem eu votaria: Michael Haneke, Amor

A grande incógnita da noite. O favorito, Ben Affleck, não foi sequer indicado. Então quem vai levar? Spielberg é o nome mais fácil, mas seu filme não ganhou prêmio importante algum. Ang Lee é outro muito cotado, já que seria uma forma de homenagear um diretor versátil por um filme que parece ter muitos admiradores - e o crescimento de seu nome me leva a apostar nele. David O. Russell conta com a campanha feroz da Weinstein Co. (veja acima), então não dá para descartar seu nome. Até Michael Haneke teria uma chance pequena, uma forma da Academia consagrar um diretor importante. Já para Benh Zeitlin, a indicação já basta - afinal, em seu filme de estreia, ele já foi premiado no Festival de Sundance, em Cannes e foi indicado ao Oscar; quer mais que isso?


Melhor atriz

Deve ganhar: Emmanuelle Riva, Amor
Alternativa: Jennifer Lawrence, O Lado Bom da Vida
Em quem eu votaria: Emmanuelle Riva

O SAG colocou Jennifer Lawrence na dianteira, como favorita, e praticamente tirou as chances de Jessica Chastain. Mas no Oscar há Emmanuelle Riva, francesa, veterana, com uma atuação fantástica e em sua primeira (e provavelmente última) indicação aos 85 anos de idade. E fará 86 exatamente no dia 24 de fevereiro, data da entrega da premiação. Seria tentador para o Oscar premiar essa lenda do cinema - ainda mais porque quem deve anunciar a vencedora é o melhor ator do ano passado, Jean Dujardin, também francês. Mas vale lembrar que muitos votantes não devem ter visto Amor, então as chances de Lawrence também são grandes. 


Melhor ator

Deve ganhar: Daniel Day-Lewis, Lincoln
Alternativa: Hugh Jackman, Os Miseráveis
Em quem eu votaria: Joaquin Phoenix, O Mestre

No domingo, Daniel Day-Lewis deve se tornar o primeiro ator a vencer três vezes esse prêmio. Uma vitória justa, diga-se. Mas eu daria para Phoenix, com uma atuação igualmente monstruosa em um papel bem mais difícil. Mas é complicado questionar o prêmio para Day-Lewis.


Melhor atriz coadjuvante

Deve ganhar: Anne Hathaway, Os Miseráveis
Alternativa: Sally Field, Lincoln
Em quem eu votaria: Helen Hunt, As Sessões

Hathaway é queridinha de todos, boa atriz e chama a atenção apesar de ter pouco tempo em Os Miseráveis. Não é a melhor atuação de todas, mas tem tudo para levar. A alternativa seria a veterana Sally Field, muito boa em Lincoln. Eu votaria em Helen Hunt, mas também ficaria feliz se Amy Adams levasse. O que não vai acontecer. O Oscar é da Hathaway.


Melhor ator coadjuvante

Deve ganhar: Tommy Lee Jones, Lincoln
Alternativa: Robert DeNiro, O Lado Bom da Vida
Em quem eu votaria: Philip Seymour Hoffman, O Mestre

Tommy Lee Jones venceu o SAG e seu nome parece o mais forte. Mas é uma categoria sem favorito claro e pode acontecer uma surpresa. Se DeNiro ganhar, deve ser mais pela carreira do que pela atuação em si. Christoph Waltz também tem chances, mas ele ganhou recentemente por uma atuação semelhante. E se a Academia fosse justa, esse prêmio já era de Philip Seymour Hoffman.


Melhor roteiro original

Deve ganhar: Quentin Tarantino, Django Livre
Alternativa: Mark Boal, A Hora Mais Escura
Em quem eu votaria: A Hora Mais Escura

Tarantino deve ganhar seu segundo Oscar (Pulp Fiction também levou roteiro), por um dos seus trabalhos mais comuns. A curiosidade aqui é que em 2010 ele também concorreu, por Bastardos Inglórios, mas perdeu exatamente para Mark Boal (Guerra ao Terror). E não descartem Haneke aqui também.



Melhor roteiro adaptado

Deve ganhar: Chris Terrio, Argo
Alternativa: Tony Kushner, Lincoln
Em quem eu votaria: Lincoln

Com Ben Affleck fora do prêmio de direção, dá para dizer que o destino da estatueta de roteiro adaptado definirá quem leva Melhor Filme. Os quatro principais concorrentes estão aqui: Argo, Lincoln, O Lado Bom da Vida e As Aventuras de Pi. Chris Terrio deve levar, até porque seria o único prêmio 'principal' que o longa levaria além de Melhor Filme.


Melhor animação

Deve ganhar: Detona Ralph
Alternativa: Valente
Em quem eu votaria: Detona Ralph

O ano foi fraco para as animações. Detona Ralph acaba se destacando por ser o filme mais redondinho. A Academia poderia premiar o Tim Burton pela carreira, mas se Frankenweenie não é uma bomba, também não é digno de prêmios. Não dá pra descartar totalmente a Pixar com Valente, um filme lindo tecnicamente mas emocionalmente vazio. Eu ficaria feliz se o divertido ParaNorman levasse, mas não tem chances. Acaba que a possível vitória de Detona Ralph seria justa.


Melhor filme estrangeiro

Deve ganhar: Amor
Alternativa: O Amante da Rainha
Em quem eu votaria: Amor

Há dois anos, Haneke era o favorito e perdeu para o argentino O Segredo dos Seus Olhos. Agora deve vencer, não só porque seu filme é inegavelmente o melhor dos cinco indicados (e concorre também ao prêmio principal), mas porque a concorrência é bem fraca - tirando o chileno No, nenhum dos outros filmes representa algo especial.


Melhor documentário

Deve ganhar: Searching for Sugar Man
Alternativa: How to Survive a Plague

Não vi nenhum dos indicados. Aposto em Searching for Sugar Man por ter vencido vários precursores, incluindo os prêmios dos sindicatos dos produtores, dos diretores e dos roteiristas.


Melhor montagem

Deve ganhar: William Goldenberg, Argo
Alternativa: Dylan Tichenor e William Goldenberg, A Hora Mais Escura
Em quem eu votaria: A Hora Mais Escura

William Goldenberg vai vencer, isso é quase certo. E deve ser por Argo, já que o filme só tem chances concretas mesmo em outras duas categorias (filme e roteiro). E será merecido, apesar do trabalho em A Hora Mais Escura ser igualmente espetacular.


Melhor fotografia

Deve ganhar: Claudio Miranda, As Aventuras de Pi
Alternativa: Roger Deakins, 007 - Operação Skyfall
Em quem eu votaria: Skyfall

Será que Roger Deakins finalmente leva um Oscar para casa? Acredito que não. A competição é dura, todos os indicados são ótimos, mas As Aventuras de Pi acabe se destacando. O espetáculo visual do filme de Ang Lee chama muito a atenção e deve ganhar.


Melhor desenho de produção

Deve ganhar: Sarah Greenwood e Katie Spencer, Anna Karenina
Alternativa: Rick Carter e Jim Erickson, Lincoln
Em quem eu votaria: Anna Karenina

Anna Karenina deve levar aqui, de forma merecida. Além de Lincoln, As Aventuras de Pi também tem chances. São três grandes trabalhos, mas acho que o filme de Joe Wright merece mais.


Melhor figurino

Deve ganhar: Jacqueline Durran, Anna Karenina
Alternativa: Paco Delgado, Os Miseráveis
Em quem eu votaria: Anna Karenina

Mais um onde Anna Karenina é favorito. Mas aqui vejo chances também para o figurino de Os Miseráveis.


Melhor maquiagem

Deve ganhar: Lisa Westcott e Julie Dartnell, Os Miseráveis
Alternativa: Peter Swords King, Rick Findlater e Tami Lane, O Hobbit: Uma Jornada Inesperada
Em quem eu votaria: O Hobbit: Uma Jornada Inesperada

Aqui está talvez a única chance concreta de O Hobbit levar um prêmio. Mas o provável é que deem o Oscar para Os Miseráveis, como compensação por outras derrotas.


Melhores efeitos visuais

Deve ganhar: As Aventuras de Pi
Alternativa: O Hobbit: Uma Jornada Inesperada
Em quem eu votaria: As Aventuras de Pi

Basicamente Gollum vs. Richard Parker. E o tigre de As Aventuras de Pi leva boa vantagem.


Melhor edição de som

Deve ganhar: 007 - Operação Skyfall
Alternativa: As Aventuras de Pi
Em quem eu votaria: As Aventuras de Pi

As Aventuras de Pi ganhou o prêmio do sindicato, então seria o favorito. Mas como todo mundo vota e geralmente o mais barulhento leva, há chances também para Argo, A Hora Mais Escura e, principalmente, 007 - Operação Skyfall.


Melhor mixagem de som

Deve ganhar: Os Miseráveis
Alternativa: 007 - Operação Skyfall
Em quem eu votaria: Argo

Musicais tendem a levar a melhor aqui, portanto Os Miseráveis é o grande favorito.


Melhor trilha sonora

Deve ganhar: Mychael Danna, As Aventuras de Pi
Alternativa: John Williams, Lincoln
Em quem eu votaria: As Aventuras de Pi

Acredito que o favorito seja As Aventuras de Pi. Mas do outro lado há John Williams em sua 48ª indicação (incluindo trilha e musica original). Ele não ganha desde 1994, então seria uma forma de homenagear um veterano. O absurdo aqui é a não-inclusão da trilha de Indomável Sonhadora, melhor que as cinco indicadas.


Melhor canção

Deve ganhar: "Skyfall", 007 - Operação Skyfall
Alternativa: "Suddenly", Os Miseráveis
Em quem eu votaria: Skyfall

Homenagens aos 50 anos de 007. Presença de vários James Bonds no palco. Um dos melhores filmes da franquia, com o maior número de indicações. Uma música composta pela queridinha do momento. Dificilmente Adele perde esse Oscar.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Indomável Sonhadora


Indomável Sonhadora, longa de estreia do diretor Benh Zeitlin, foi uma das maiores surpresas de 2012. Exibido pela primeira vez no Festival de Sundance, o principal evento do cinema independente norte-americano, a obra logo chamou a atenção da crítica e do público, sendo considerado como um dos destaques da mostra. A curiosidade sobre o filme aumentou ainda mais quando o diretor recebeu a Câmera de Ouro, prêmio do Festival de Cannes destinado a estreantes. Se não bastasse tudo isso, o diretor foi ainda indicado ao Oscar, com Indomável Sonhadora presente em cinco categorias, incluindo melhor filme. E não é para menos: mesmo debutando na função em um longa metragem, Zeitlin mostra segurança e talento, criando um filme belíssimo e emocionante.

Com um elenco repleto de atores amadores, Indomável Sonhadora é protagonizado por Hushpuppy (a espetacular Quvenzhané Wallis, com 5 anos na época das filmagens), uma menina que vive com o pai (Dwight Henry) numa área rural devastada pelo furacão Katrina. Vivendo em uma espécie de comunidade hippie, Hushpuppy tem de lidar com seu amadurecimento, aprendendo a enfrentar os medos, a doença do pai, a vontade de conhecer a mãe e as constantes tempestades que, de uma hora para outra, devastam toda a região.

Zeitlin usa esse contexto para criar uma obra profundamente ambientalista, destacando a relação homem/meio ambiente, mas sem nunca soar panfletário. Isso fica claro pela forma como o filme retrata seus personagens: morando em um lugar devastado pelo clima instável, em meio a destroços, carcaças e pouca higiene, em nenhum momento o roteiro - escrito pelo diretor em parceria com Lucy Alibar, baseado em uma peça desta última - vitimiza esses indivíduos. Pelo contrário: há entre eles um sentimento de liberdade e total comunhão com a natureza. Não é à toa que a protagonista faz diversas comparações entre aqueles humanos e os animais, sendo que os primeiros podem ser considerados as verdadeiras 'bestas' do título original. Lutando pela sobrevivência, eles não abrem mão de sua verdadeira natureza e não apelam para tecnologia ou ferramentas, seja para sobreviverem às tempestades ou para se alimentarem.



Mas o filme só funciona mesmo por causa da relação tocante entre Hushpuppy e seu pai. Trabalhando com uma atriz tão jovem, a equipe de produção sabe que deve apelar para efeitos que melhorem o desempenho de Wallis - e a montagem do filme é muito eficiente nesse ponto. Hushpuppy surge como uma figura impressionante, forte e animalesca, mas também sensível e repleta de dúvidas e questionamentos típicos de alguém de sua idade - e se há muito mérito da direção de Zeitlin em sua atuação, não se pode duvidar da expressividade de Wallis, que se destaca mais de uma vez ao longo da história. Da mesma forma, igualmente fantástico (e injustamente ignorado pelas premiações deste ano) é Dwight Henry, que caracteriza Wink, o pai da protagonista, como um sujeito alcoólatra, duro e que não se esforça para parecer carinhoso, mas que claramente se preocupa com a menina. Os momentos de interação entre pai e filha são os melhores de todo o longa, e a química entre Henry e Wallis é muito eficiente para demonstrar a necessidade mútua que um tem do outro.

Com um estilo de filmagem lírico e poético, beneficiado pela ótima fotografia de Ben Richardson e a maravilhosa trilha sonora criada pelo próprio diretor junto com o compositor Dan Romer, Indomável Sonhadora acompanha o amadurecimento de uma criança que, a partir de seu próprio ponto de vista, aprende a lidar com seus medos, dúvidas e a enfrentar as 'bestas' do mundo. Um trabalho de gente grande, inesquecível, que ajudou a revelar ao mundo os nomes de Benh Zeitlin e Quvenzhané Wallis.

Beasts of the Southern Wild (EUA, 2012). Dirigido por Benh Zeitlin. Com Quvenzhané Wallis, Dwight Henry, Levy Easterly, Lowell Landes, Palmela Harper, Gina Montana e Henry D. Coleman.


domingo, 17 de fevereiro de 2013

Anna Karenina



Terceiro filme da trilogia dos romances literários de época dirigidos por Joe Wright (os outros foram Orgulho e Preconceito e Desejo e Reparação), Anna Karenina é o mais irregular. Adaptando desta vez o obra do russo Tolstoy, o longa narra a história da personagem título (Keira Knightley), uma mulher casada com o político Alexei Karenin (Jude Law) e que se envolve em um romance com o nobre Vronsky (Aaron Taylor-Johnson). Este, por sua vez, está prometido à princesa Kitty (Alicia Vikander), que é alvo da paixão do rico Levin (Domhnall Gleeson). Uma trama novelesca que também traz como personagens o casal Dolly (Kelly McDonald) e Oblonsky (Matthew Macfadyen), este último irmão da protagonista, que tentam manter um casamento fracassado e infeliz.

Gravado quase inteiramente dentro de um teatro, o que reforça o tom melodramático e pomposo da obra, a obra permite que Wright realize vários tipos de experimentações: cenários que se movem, planos-sequência estilizados, trocas de figurino em cena, etc. Aí se encontram os maiores destaques de Anna Karenina, com direito a sequências belíssimas, em especial o longo plano durante um baile que mostra, pela primeira vez, Karenina e Vronksy tendo algum tipo de contato físico. Da mesma forma, o diretor utiliza a teatralidade também como alívio cômico e abusa dos planos líricos e simbólicos. Nesse ponto, a direção de arte, a fotografia e o design de som criam uma ambientações perfeitas e mudanças completas de ares dentro de um espaço limitado.

Mas toda essa atenção dada à parte técnica e artística da obra é deixada de lado em relação ao roteiro e à narrativa. A história parece corrida, os personagens vêm e vão sem que nos identifiquemos, tudo parece batido e já visto antes. Keira Knightley chama a atenção mais por sua magreza mórbida e suas caras e bocas do que por sua personagem. Sua Anna Karenina é uma figura inconstante e tediosa, e a atriz não se esforça muito para mudar essa impressão. Por outro lado, Macfadyen possui ótimo timing cômico e carisma, enquanto Jude Law consegue demonstrar a nobreza de seu personagem - mas ainda assim suas atuações são somente corretas. Já a história envolvendo o casal vivido por Domhnall Gleeson e Alicia Vikander (que está bem melhor como a protagonista de O Amante da Rainha) é irritantemente enfadonha e toda vez que acompanhamos os personagens o filme perde bastante em ritmo.

Mesmo com vária sequências belas, o fato é que Anna Karenina é uma obra fria, sem emoção. Wright tenta apelar muitas vezes para o melodrama, mas falha quase sempre. Um filme ao mesmo tempo lindo e entediante.

Anna Karenina (Reino Unido, 2012). Dirigido por Joe Wright. Com Keira Knightley, Aaron Taylor-Johnson, Jude Law, Matthew Macfadyen, Domhnall Gleeson, Alicia Vikander, Kelly McDonald, Olivia Williams e Emily Watson.