Nos dez anos, mais ou menos, que tenho acompanhado o Oscar, não me lembro de sequer uma vez em que o favorito ao prêmio principal fosse uma incógnita tão grande quanto em 2014. Houve casos com mais de uma possibilidade, mas sempre havia um favorito - que não necessariamente levava. Desta vez não. De acordo com os precursores, dois filmes têm chances quase idênticas de levarem melhor filme. Portanto, se nas demais categorias eu posso dizer que há certeza nas apostas, na principal não passa mais de um "palpite". Vamos a elas:
Melhor Mixagem de Som
Deve ganhar: Gravidade. Um dos primeiros prêmios técnicos em que Gravidade é favorito. Aqui poderemos começar a ter noção de sua tendência a vencer quase tudo na noite.
Com chances: Inside Llewyn Davis. O fato de ter várias músicas durante o filme ajuda a chamar atenção na categoria. Mas como foi ignorado nas principais, dificilmente ganha (o que seria muito injusto).
Em quem eu votaria: Inside Llewyn Davis.
Melhor Edição de Som
Deve ganhar: Gravidade. Idem acima.
Com chances: Capitão Phillips. Mas aqui Gravidade é ainda mais favorito do que em mixagem.
Em quem eu votaria: Até o Fim.
Melhor Canção Original
Deve ganhar: "Let it Go" (Frozen). Seria a volta da Disney, que dominou essa categoria por um bom tempo.
Com chances: "Ordinary Love" (Mandela - A Long Walk for Freedom). Se a Academia estiver com vontade de premiar alguém famoso, tem o U2 aí. Mas a Academia não é a HFPA, então deve dar Frozen mesmo.
Em quem eu votaria: "Let it Go". Gosto da canção da Karen O. e do Spike Jonze para Ela, mas ficaria com a de Frozen pelo que ela representa.
Melhor Trilha Sonora
Deve ganhar: Philomena. Muitos apostam em Gravidade aqui - e podem ter razão. Mas acho difícil que Philomena fique sem um Oscar ainda mais com toda a campanha da Weinstein Co. pelo filme. Aqui tem sua maior chance de vitória.
Com chances: Gravidade. A trilha é eficiente, mas também incomoda a muitos. Tem chances, mas não tão grandes quanto em outras categorias.
Em quem eu votaria: Ela.
Melhores Efeitos Visuais
Deve ganhar: Gravidade. Óbvio, né?
Com chances: Ninguém. Mas se é para falar um, então O Hobbit: A Desolação de Smaug.
Em quem eu votaria: Gravidade.
Melhor Design de Produção
Deve ganhar: O Grande Gatsby. Talvez eu tenha mentido no começo: nessa categoria eu consigo enxergar vários filmes com tendência a ganhar. É uma chance, por exemplo, de 12 Anos de Escravidão ampliar seus prêmios; ou de Trapaça não sair de mãos vazias. Vou apostando no mais convencional mesmo, mas sem muita certeza.
Com chances: 12 Anos de Escravidão. Como disse acima, se o filme de McQueen levar esse, pode começar a indicar que é mais forte e pode levar filme também.
Em quem eu votaria: Ela. O design de produção é fundamental para o filme e a construção de sua atmosfera. Em um mundo perfeito, seria favorito absoluto. Tem chances de vencer também, e seria uma agradável surpresa.
Melhor Maquiagem e Cabelos
Deve ganhar: Clube de Compras Dallas. É o favorito por exclusão; ou vocês levariam a sério uma peça publicitária com "Vovô sem vergonha, vencedor do Oscar".
Com chances: Vovô sem vergonha. Não vi o filme, mas o fato é que sua maquiagem foi realmente bastante elogiada. E O Cavaleiro Solitário foi um fracasso retumbante.
Em quem eu votaria: Clube de Compras Dallas.
Melhor Figurino
Deve ganhar: Trapaça. É artificial e chama bastante atenção. E dificilmente Trapaça sairá de mãos vazias.
Com chances: O Grande Gatsby. Muitos o apontam como favorito - merecidamente até. Mas, como eu falei, Trapaça tem mais bala na agulha aqui.
Em quem eu votaria: O Grande Mestre.
Melhor Fotografia
Deve ganhar: Gravidade. Mais um prêmio técnico onde é franco favorito merecidamente.
Com chances: Nebraska. Aparentemente porque é em preto e branco. Não deveria nem ter sido indicado.
Em quem eu votaria: Gravidade. Mas torceria para um empate triplo com O Grande Mestre e Inside Llewyn Davis.
Melhor Montagem
Deve ganhar: Gravidade. Perdeu o prêmio do sindicato dos montadores, mas permanece favorito. Se vencer aqui, consolida sua caminhada para levar Melhor Filme.
Com chances: Capitão Phillips. Foi o vencedor do prêmio do sindicato e, num ano "normal", ganharia facilmente.
Em quem eu votaria: Gravidade. Ou talvez votasse em branco em protesto por não terem indicado Upstream Color.
Melhor Documentário
Deve ganhar: A um passo do estrelato. É o mais popular dos documentários. Como todos os membros votam - ao contrário de anos atrás, quando só quem assistia a todos os filmes votava -, deve levar.
Com chances: The Square. Trata de uma situação política importante e atual. Se a Academia resolver ser politizada, leva o Oscar.
Em quem eu votaria: O Ato de Matar. Em um mundo perfeito, seria o favorito absoluto. Muitos apostam nele, mas acho que sua temática pode ter afastado os votantes.
Melhor Animação
Deve ganhar: Frozen. Em um mais um ano fraco para animações, a Disney tem chances de vencer seu primeiro Oscar na categoria sem ter o selo da Pixar junto.
Com chances: Vidas ao Vento. É o último filme do Miyazaki. Pode ser um jeito de homenagear sua carreira. Tirando isso, tem poucas chances.
Em quem eu votaria: Frozen. Não vi Vidas ao Vento, mas Frozen é o melhor em um ano fraco para animações.
Melhor Filme Estrangeiro
Deve ganhar: A Grande Beleza (Itália). Outra categoria difícil por não ter nenhum bicho-papão como nos últimos anos (como Amor ou A Separação). O longa do Sorrentino vem sendo o mais forte, levou o Globo de Ouro, o BAFTA e o prêmio da Academia de Cinema da Europa.
Com chances: Alabama Monroe (Bélgica). Um bom filme que pode fazer sucesso entre os votantes americanos, não só pelas músicas, mas pelo drama em si. O dinamarquês A Caça também tem chances de levar.
Em quem eu votaria: A Grande Beleza. Queria muito ter visto o cambojano A Imagem que Falta e o palestino Omar. Mas, apesar de gostar dos outros três, ficaria com o italiano.
Melhor Roteiro Adaptado
Deve ganhar: 12 Anos de Escravidão. Um dos prêmios chave da noite. Se 12 Anos perder aqui, perde Melhor Filme também. Deve levar, mas fiquemos de olho.
Com chances: Philomena. Eu acho um roteiro bem fraquinho, mas tem muita gente que gosta. E tem Harvey Weinstein por trás, o que não pode ser ignorado.
Em quem eu votaria: Antes da Meia-Noite.
Melhor Roteiro Original
Deve ganhar: Ela. O trabalho de Spike Jonze é o mais ousado, criativo e original da leva. Essa é uma categoria que costuma dar prêmios para esse tipo de obra.
Com chances: Trapaça. Apesar de bom, seria meio complicado vencer Ela, mas é a Academia, né.
Em quem eu votaria: Ela.
Melhor Ator Coadjuvante
Deve ganhar: Jared Leto (Clube de Compras Dallas). O grande favorito. Venceu tudo até agora.
Com chances: Barkhad Abdi (Capitão Phillips). Cresceu nas últimas semanas e pode surpreender.
Em quem eu votaria: Jonah Hill (O Lobo de Wall Street).
Melhor Atriz Coadjuvante
Deve ganhar: Lupita Nyong'o (12 Anos de Escravidão). A Academia adora premiar atrizes estreantes ou pouco conhecidas nessa categoria (ao contrário de ator coadjuvante, o que dificulta as coisas para Abdi). E Nyong'o é a melhor mesmo.
Com chances: June Squibb (Nebraska). Muita gente apostando mais na Jennifer Lawrence, mas ela ganhou ano passado. Se não forem de Nyong'o, acho que Squibb leva.
Em quem eu votaria: Lupita Nyong'o.
Melhor Ator
Deve ganhar: Matthew McConaughey (Clube de Compras Dallas). É o cara do momento. Deu uma virada na carreira, só tem feito atuações espetaculares e está no ar semanalmente na TV com True Detective - onde também rouba todas as cenas. É uma categoria difícil, mas aparece como favorito.
Com chances: Leonardo DiCaprio (O Lobo de Wall Street). É sua quarta indicação como ator e nunca venceu. Sua trabalho também é espetacular e seu nome tem crescido.
Em quem eu votaria: McConaughey. Ou Di Caprio. Ou Chiwetel Ejiofor (12 Anos de Escravidão). Ou Bruce Dern (Nebraska). Esse ano foi fantástico para as atuações masculinas. Gosto muito das quatro citadas e não saberia escolher uma. E ainda ficou muita gente boa de fora: Oscar Isaac (Inside Llewyn Davis), Robert Redford (Até o Fim), Joaquin Phoenix (Ela), Tom Hanks (Capitão Phillips)...
Melhor Atriz
Deve ganhar: Cate Blanchett (Blue Jasmine). A favorita desde que o filme estreou, no meio de 2013. Venceu simplesmente tudo até agora.
Com chances: Não que tenha chances, mas a mais próxima de tirar esse prêmio de Blanchett hoje é Judi Dench (Philomena).
Em quem eu votaria: Blanchett.
Melhor Diretor
Deve ganhar: Alfonso Cuarón (Gravidade). É o grande favorito, mesmo que Gravidade acabe não ficando com Melhor Filme. Misturou experimentalismo com blockbuster, fez sucesso com o público e com a crítica especializada.
Com chances: Steve McQueen (12 Anos de Escravidão). Até meados do ano passado, parecia que seria o primeiro negro (e o primeiro Steve McQueen) a vencer a categoria. Mas Cuarón é forte demais.
Em quem eu votaria: Cuarón.
Melhor Filme
Deve ganhar: Gravidade. É mais um palpite que certeza. A regra na temporada prêmios até aqui é a de dividir os louros: Gravidade leva a maioria dos prêmios e 12 Anos de Escravidão é eleito o melhor filme. Pode acontecer o mesmo no Oscar. Mas eu tenho a impressão de que não vai. É raro - mas não tanto - os prêmios de filme e direção serem divididos (lembrando que isso só aconteceu ano passado porque Ben Affleck não foi indicado). Além disso, Gravidade deve vencer quase todos os prêmios técnicos que disputa e, junto com direção, pareceria justo para os votantes que fosse o melhor filme. E 12 Anos de Escravidão não parece ter muitos fãs entre os acadêmicos. Nunca um filme de ficção-científica venceu o Oscar. Pode ser dessa vez.
Com chances: 12 Anos de Escravidão. Ainda assim, é um nome forte. Como dito acima, tem levado todos os prêmios de Melhor Filme e no PGA empatou com Gravidade. Sua estrutura narrativa e mesmo a direção de McQueen remetem a um cinema clássico, mistura de formalismo com realismo. Infelizmente, comentários estúpidos sobre sua "violência extrema" podem ter afastado votantes de ao menos assisti-lo.
Possível surpresa: Trapaça. As previsões este ano estão tão complicadas que há até a possibilidade do prêmio ir para outro filme além dos dois favoritos. Trapaça, com dez indicações e o Globo de Ouro de comédia/musical seria o primeiro dessa lista. Mas há ainda certo burburinho em torno de Capitão Phillips, O Lobo de Wall Street e até mesmo Philomena.
Em quem eu votaria: Ela. Os indicados deste ano estão bem decentes. Bobeiras como O Mordomo da Casa Branca e Walt nos Bastidores de Mary Poppins ficaram de fora e a lista final não tem nenhuma bomba. Mas o filme de Jonze é - junto, mas em menor escala, com O Lobo de Wall Street e Gravidade - o trabalho mais ousado dos nove indicados. Ainda que eu também goste muito de 12 Anos de Escravidão (é meu segundo preferido), eu ficaria com o romance entre um homem e seu sistema operacional para o melhor filme de 2013.
quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014
terça-feira, 31 de dezembro de 2013
Melhores de 2013 - Parte 2
10. Gravidade (Gravity; EUA), dirigido por Alfonso Cuarón
Se o 3D serviu para algo no cinema foi para tornar a experiência de assistir a Gravidade em uma sala escura inesquecível. Com uma sequência espetacular depois da outra, Cuarón se afirma como um dos cineastas mais visionários do nosso tempo, com um domínio perfeito da linguagem cinematográfica.
9. Além das Montanhas (Dupa Dealuri; Romênia), dirigido por Cristian Mungiu
Mesmo sem ter a mesma repercussão que seu anterior (4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias), o novo longa de Cristian Mungiu surpreendeu pela forma como retrata como o fanatismo religioso pode arruinar a felicidade de muitas pessoas - e como indivíduos com as melhores das intenções podem praticar atos bárbaros em nome da fé.
8. Killer Joe - Matador de Aluguel (Killer Joe; EUA), dirigido por William Friedkin
A volta em grande estilo do ano, marcando o retorno do veterano William Friedkin com um filme sobre a decadência moral dos Estados Unidos. Além disso, é o ponto alto (ao menos até agora) da virada na carreira do ator Matthew McConaughey. Nunca mais um frango assado será comido da mesma forma depois de se assistir a esse filme.
7. Antes da Meia-Noite (Before Midnight; EUA), dirigido por Richard Linklater
É como reencontrar velhos amigos que não víamos a muito tempo: eles estão mudados, mais velhos, com outras experiências e novos objetivos. O grande êxito não só de Antes da Meia-Noite, mas de toda a trilogia que acompanha o casal Jesse e Céline, é a forma como os dois parecem evoluir através do tempo, com novos dilemas e situações. Um filme para discorrer sobre a paixão, o amor e o compromisso, sem romantizações ou falsas expectativas.
6. Azul é a Cor Mais Quente (La Vie d'Adèle; França), dirigido por Abdellatif Kechiche
O vencedor da Palma de Ouro 2013 é uma história de amadurecimento e descoberta da sexualidade, mas acima de tudo é um belo estudo de personagem. A abordagem de Kechiche é humanista e naturalista, fazendo com que o espectador quase sinta na pele as emoções por que passa sua protagonista - e Adèle Exarchopoulos tem a grande atuação individual do ano.
5. O Mestre (The Master; EUA), dirigido por Paul Thomas Anderson
O Mestre confirmou mais uma vez o nome de Paul Thomas Anderson como um dos mais importantes cineastas da atualidade. Seu trabalho sobre um homem despedaçado e sua admiração por um guru religioso arrancou atuações fantásticas de todo o elenco e alguns dos mais belos momentos do cinema em 2013.
4. Amor (Amour; França), dirigido por Michael Haneke
Haneke filma o amor de sua forma, repleto de sofrimento. Um filme poderoso sobre o fim da vida e a dedicação.
3. O Ato de Matar (The Act of Killing; Reino Unido), dirigido por Joshua Oppenheimer
Durante anos a ditadura da Indonésia contratou matadores de aluguel para se livrar da oposição "comunista". Hoje, com a democracia restituída, aqueles mesmos cidadãos se encontram no poder. O Ato de Matar é um documentário importante não só pelos depoimentos que contém, pela frieza com que aqueles indivíduos narram e encenam seus assassinatos bárbaros; acima de tudo é uma reflexão sobre o próprio cinema e como a fantasia serve para tornar aceitável atos de violência extrema.
2. Upstream Color (idem; EUA), dirigido por Shane Carruth
Depois de estrear com o desafiante Primer, Shane Carruth refina sua forma de contar histórias, com um filme que une a racionalidade do primeiro com um toque de emoção. Seja como romance ou como ficção científica, Upstrem Color utiliza da linguagem cinematográfica para criar uma narrativa que confia tanto na inteligência como na sensibilidade do espectador para funcionar.
1. O Som ao Redor (idem; Brasil), dirigido por Kleber Mendonça Filho
Não só a melhor estreia e o melhor nacional de 2013 - melhor filme, no geral. A obra de Kleber Mendonça Filho é um retrato sobre qualquer grande cidade brasileira. Um filme que reflete as barreiras que construímos ao nosso redor, sejam elas físicas - a cerca, o muro, as grades -, sejam elas sociais - o preconceito, o medo, a falta de diálogo. Uma lição sobre cinema e sobre o Brasil de hoje.
sexta-feira, 27 de dezembro de 2013
Melhores de 2013 - Parte 1
Começo aqui a minha lista com os melhores filmes de 2013. Esse ano acabei não vendo tantos filmes quanto gostaria, mas fiquei muito contente com a lista a seguir. Como costume, selecionei os vinte melhores longas que vi no ano, a maioria lançado em circuito comercial no Brasil, e aqui está a primeira parte da lista. Nos próximos dias, postarei o top 10 do ano.
20. Capitão Phillips (Captain Phillips; EUA), dirigido por Paul Greengrass
Um filme que marcou dois retornos: o de Paul Greengrass à direção de um thriller baseado em histórias reais e o de Tom Hanks às grandes atuações. Ainda que menos tenso que seus dois grandes filmes (Voo 93 e Domingo Sangrento), Greengrass ainda demonstra talento em uma narrativa eletrizante - auxiliado por um Hanks que brilha nos minutos finais da trama.
19. Blue Jasmine (idem; EUA), dirigido por Woody Allen
Woody Allen se reinventa nessa história trágica sobre uma mulher medíocre que se vê forçada a recomeçar a vida depois que seu marido milionário (e vigarista) é preso. Um estudo de personagem raro na carreira do diretor, que mistura crise econômica com Um Bonde Chamado Desejo. A atuação sobrenatural de Cate Blanchett só não é a melhor do ano porque em 2013 também tivemos uma francesa chamada Adèle.
18. Um Estranho no Lago (L'inconnu du Lac; França), dirigido por Alain Guiraudie
Um suspense com elementos de Alfred Hichcock - voyeurismo e conflitos morais - sobre homens solitários em busca do prazer. Também uma metáfora sobre a vida de muitos homossexuais, forçados pela sociedade preconceituosa a se esconder como se sua existência fosse um crime em si. Mais que um "filme gay", Um Estranho no Lago é cinema de grande qualidade.
17. A Bela que Dorme (Bella Addormentata; Itália), dirigido por Mario Bellocchio
Bellocchio faz uma profunda análise sobre a eutanásia e discorre sobre o direito de escolha e as liberdades individuais. Mais do que um filme sobre a morte, A Bela que Dorme é uma obra sobre como lidamos com a nossa vida. Uma obra humanista sobre as escolhas individuais e as diferentes maneiras de aceitar a morte.
16. A Caça (Jagten; Dinamarca), dirigido por Thomas Vinterberg
Primeiro trabalho relevante de Vinterberg desde que apareceu para o mundo há mais de dez anos com o já clássico Festa de Família, A Caça traz Mads Mikkelsen como um professor acusado de pedofilia. O filme traz as consequências de um clima de caça às bruxas e o quanto uma falsa acusação pode marcar para sempre a vida de uma pessoa.
15. A Hora Mais Escura (Zero Dark Thirty; EUA), dirigido por Kathryn Bigelow
Bigelow e o roteirista Mark Boal fizeram um trabalho de pesquisa extenso para contar com detalhes a caça a Osama Bin Laden. Sem fugir da polêmica, com um estilo que mistura documento com thriller, a diretora mais uma vez demonstrou talento nas cenas de ação e de suspense. Mas foi o retrato de um país com políticas contraditórias e ações moralmente questionáveis que tornaram A Hora Mais Escura um filme que a ser visto e debatido.
14. Amor Bandido (Mud; EUA), dirigido por Jeff Nichols
Apesar do péssimo título nacional, Amor Bandido não é um romance, mas uma história de crescimento, centrado em dois garotos que conhecem um estranho indigente e com ele criam uma forte ligação. Um filme sobre amadurecimento que parece saído dos anos 1980 e que mostram que Jeff Nichols - do também excelente O Abrigo - é um nome para ser observado.
13. Cesar Deve Morrer (Cesare Deve Morire; Itália), dirigido por Paolo Taviani e Vittorio Taviani
Os veteranos diretores italianos apresentam um documentário que mistura ficção e realidade, acompanhando um grupo de presidiários - alguns deles condenados a penas duras por crimes como assassinatos - durante os ensaios e a encenação da peça Julio Cesar, de Shakespeare. A partir daí, o filme surpreende ao mostrar que mesmo indivíduos capazes dos atos mais bárbaros e violentos também podem possuir tamanha sensibilidade artística - e podem ter uma segunda chance na vida dentro de um sistema prisional que os respeite como seres humanos.
12. Indomável Sonhadora (Beasts of the Southern Wild; EUA), dirigido por Benh Zeitlin
O filme que revelou o diretor Benh Zeitlin e a atriz Quvenzhané Wallis foi a grande sensação do cinema independente norte-americano de 2012 e surpreendeu com várias indicações ao Oscar. Uma obra sensível e lírica sobre os sonhos infantis mesmo nas piores das realidades.
11. A Grande Beleza (La Grande Bellezza; Itália), dirigido por Paolo Sorrentino
Sorrentino se inspira em Fellini para fazer uma crítica ácida a uma Itália que parece ignorar o seu passado de berço cultural, surgindo como uma caricatura povoada por indivíduos de meia-idade egocêntricos que vivem uma vida medíocre e patética entre um e outro "bunga bunga" berlusconiano.
20. Capitão Phillips (Captain Phillips; EUA), dirigido por Paul Greengrass
Um filme que marcou dois retornos: o de Paul Greengrass à direção de um thriller baseado em histórias reais e o de Tom Hanks às grandes atuações. Ainda que menos tenso que seus dois grandes filmes (Voo 93 e Domingo Sangrento), Greengrass ainda demonstra talento em uma narrativa eletrizante - auxiliado por um Hanks que brilha nos minutos finais da trama.
19. Blue Jasmine (idem; EUA), dirigido por Woody Allen
Woody Allen se reinventa nessa história trágica sobre uma mulher medíocre que se vê forçada a recomeçar a vida depois que seu marido milionário (e vigarista) é preso. Um estudo de personagem raro na carreira do diretor, que mistura crise econômica com Um Bonde Chamado Desejo. A atuação sobrenatural de Cate Blanchett só não é a melhor do ano porque em 2013 também tivemos uma francesa chamada Adèle.
18. Um Estranho no Lago (L'inconnu du Lac; França), dirigido por Alain Guiraudie
Um suspense com elementos de Alfred Hichcock - voyeurismo e conflitos morais - sobre homens solitários em busca do prazer. Também uma metáfora sobre a vida de muitos homossexuais, forçados pela sociedade preconceituosa a se esconder como se sua existência fosse um crime em si. Mais que um "filme gay", Um Estranho no Lago é cinema de grande qualidade.
17. A Bela que Dorme (Bella Addormentata; Itália), dirigido por Mario Bellocchio
Bellocchio faz uma profunda análise sobre a eutanásia e discorre sobre o direito de escolha e as liberdades individuais. Mais do que um filme sobre a morte, A Bela que Dorme é uma obra sobre como lidamos com a nossa vida. Uma obra humanista sobre as escolhas individuais e as diferentes maneiras de aceitar a morte.
16. A Caça (Jagten; Dinamarca), dirigido por Thomas Vinterberg
Primeiro trabalho relevante de Vinterberg desde que apareceu para o mundo há mais de dez anos com o já clássico Festa de Família, A Caça traz Mads Mikkelsen como um professor acusado de pedofilia. O filme traz as consequências de um clima de caça às bruxas e o quanto uma falsa acusação pode marcar para sempre a vida de uma pessoa.
15. A Hora Mais Escura (Zero Dark Thirty; EUA), dirigido por Kathryn Bigelow
Bigelow e o roteirista Mark Boal fizeram um trabalho de pesquisa extenso para contar com detalhes a caça a Osama Bin Laden. Sem fugir da polêmica, com um estilo que mistura documento com thriller, a diretora mais uma vez demonstrou talento nas cenas de ação e de suspense. Mas foi o retrato de um país com políticas contraditórias e ações moralmente questionáveis que tornaram A Hora Mais Escura um filme que a ser visto e debatido.
14. Amor Bandido (Mud; EUA), dirigido por Jeff Nichols
Apesar do péssimo título nacional, Amor Bandido não é um romance, mas uma história de crescimento, centrado em dois garotos que conhecem um estranho indigente e com ele criam uma forte ligação. Um filme sobre amadurecimento que parece saído dos anos 1980 e que mostram que Jeff Nichols - do também excelente O Abrigo - é um nome para ser observado.
13. Cesar Deve Morrer (Cesare Deve Morire; Itália), dirigido por Paolo Taviani e Vittorio Taviani
Os veteranos diretores italianos apresentam um documentário que mistura ficção e realidade, acompanhando um grupo de presidiários - alguns deles condenados a penas duras por crimes como assassinatos - durante os ensaios e a encenação da peça Julio Cesar, de Shakespeare. A partir daí, o filme surpreende ao mostrar que mesmo indivíduos capazes dos atos mais bárbaros e violentos também podem possuir tamanha sensibilidade artística - e podem ter uma segunda chance na vida dentro de um sistema prisional que os respeite como seres humanos.
12. Indomável Sonhadora (Beasts of the Southern Wild; EUA), dirigido por Benh Zeitlin
O filme que revelou o diretor Benh Zeitlin e a atriz Quvenzhané Wallis foi a grande sensação do cinema independente norte-americano de 2012 e surpreendeu com várias indicações ao Oscar. Uma obra sensível e lírica sobre os sonhos infantis mesmo nas piores das realidades.
11. A Grande Beleza (La Grande Bellezza; Itália), dirigido por Paolo Sorrentino
Sorrentino se inspira em Fellini para fazer uma crítica ácida a uma Itália que parece ignorar o seu passado de berço cultural, surgindo como uma caricatura povoada por indivíduos de meia-idade egocêntricos que vivem uma vida medíocre e patética entre um e outro "bunga bunga" berlusconiano.
sábado, 12 de outubro de 2013
Gravidade
Gravidade é um filme de naufrágio que se passa no espaço. Dois astronautas, o veterano piloto Matt Kowalsky (George Clooney) e a médica novata Ryan Stone (Sandra Bullock), lutam pela sobrevivência depois de serem atingidos por destroços de um satélite russo, repetindo a velha dinâmica "homem versus natureza". O que chama atenção no filme do diretor e roteirista Alfonso Cuarón é o número de recursos técnicos e de linguagem presentes, com a ausência de gravidade permitindo ao talentoso cineasta uma série de liberdades que são usadas de forma espetacular.
Cuarón já havia demonstrado talento e ousadia em seu filme anterior, o ótimo Filhos da Esperança, lançado no longínquo ano de 2006: um longa repleta de tomadas criativas e planos sequência que chegavam a passar de vinte minutos. Mas em Gravidade ele eleva essa ousadia a um novo patamar - o filme pode ser resumido a uma sequência de planos sem cortes aparentes, todos longuíssimos. Mas isso, surpreendentemente, está longe de tornar o filme enfadonho ou tedioso: Cuarón mantém sempre a câmera em movimento, como se ela estivesse flutuando no espaço, em um ritmo que varia do calmo ao frenético. Isso permite com que ele mude o eixo de filmagem, faça piruetas e entre na visão de seus personagens - há até um "plano sequência-subjetivo". Um show de técnica que faz com que Gravidade seja uma mistura curiosa de blockbuster com filme experimental.
O que também transforma o longa em um espetáculo é o seu grau de realismo. Respeitando as leis da física e usando-as como parte fundamental de sua narrativa, Gravidade se engrandece como suspense exatamente porque tudo que vemos na tela é possível. Esse grau de realidade é auxiliado pela fotografia magistral de Emmanuel Lubezki e pelo trabalho brilhante da equipe de efeitos visuais, que dão vida à Terra e ao espaço criados inteiramente no computador: as luzes das cidades à noite, a aurora boreal esverdeada, o brilho ofuscante do Sol são alguns dos elementos que surgem em seus mínimos detalhes. Já o uso do 3D é um dos mais eficazes já realizados, aumentando a imersão do espectador, além de demonstrar a grandiosidade do espaço em relação aos astronautas e até às estações espaciais, que surgem como pequenos objetos flutuantes na imensidão do universo.
Entretanto, o ponto alto do filme, ao menos tecnicamente, é o seu design de som. Seja nos barulhos abafados dentro do traje dos astronautas, na respiração ofegante e no coração acelerado da protagonista, todo elemento é cuidadosamente integrado à narrativa. Mas é o silêncio absoluto do vácuo que impressiona mais: numa época em que os filmes de ação investem cada vez mais em efeitos sonoros barulhentos e explosões grandiosas, a destruição silenciosa de Gravidade é poderosa e assustadora.
Todo esse cuidado técnico seria em vão se o filme não conseguisse atingir o mesmo sucesso emocionalmente. Mas aí entra o talento de Cuarón também como roteirista e a surpreendente atuação de Sandra Bullock. O roteiro escrito pelo cineasta junto com seu filho, Jonás, consegue construir as motivações da protagonista de forma gradual e aposta numa relação de tutor-aprendiz entre a insegura Stone e o experiente Kowalsky. Bullock entrega a melhor atuação de sua carreira, digna de prêmios, segurando o filme em seus momentos mais dramáticos, enquanto que George Clooney esbanja seu já conhecido carisma. O filme também conta com uma pequena participação de Ed Harris, como a voz do operador na Terra - o mesmo papel que fez em Apollo 13, o que não deixa de ser curioso.
Repleto de momentos que chegam a ser poéticos - as lágrimas de Stone flutuando, por exemplo -, Gravidade é um grande espetáculo visual e emocional. E, claro, o filme não deixa de fazer referências pontuais ao maior clássico do gênero, 2001 - Uma Odisseia no Espaço - quando o homem perde controle de suas ferramentas diante da natureza implacável do universo (o parafuso em Gravidade, a caneta em 2001) ou quando Stone assume uma posição fetal, semelhante ao bebê no final de 2001. Com o talento e o domínio da linguagem cinematográfica que Cuarón demonstra possuir, dá para dizer que Stanley Kubrick ficaria orgulhoso em ser lembrado.
Gravity (EUA, 2013). Dirigido por Alfonso Cuarón. Com Sandra Bullock, George Clooney, Ed Harris e Paul Sharma.
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